19/03/2020 às 08h00min - Atualizada em 19/03/2020 às 08h00min

Fomes

IVONE GOMES DE ASSIS

Fomes. Faz tempo que a fome assola o mundo, e não é de hoje que o alto custo carcerário brasileiro, para manter um preso trancafiado na cela, é assunto em pauta. Nesta semana foram mais de mil presos em fuga, no Brasil. Enquanto no Irã 85 presos foram soltos devido ao coronavírus. O que prevalece é o medo: "Porque há para todos nós um problema sério... / Este problema é o do medo." (Antonio Candido, 1945).

Entre punir e ressocializar detentos, e reduzir o índice de criminalidade, há que se pensar uma gestão voltada para o crescimento humano, tendo como modelo estrutural a educação e a infraestrutura ofertada aos cidadãos, recursos estes que incidem diretamente na saúde, na segurança, na tecnologia, na economia, enfim, na vida.

Quanto maior e melhor for a educação, menor será a violência, enfraquecendo a necessidade de construção de novos presídios e esvaziando hospitais e unidades de saúde. A razão é simples: compromisso com o conhecimento e amor próprio, dentro de um processo de consciência.

Não basta ensinar as ciências da escrita, é preciso ter educação social, sobre o valor humano. Para que, desse modo, o monitoramento eletrônico passe a ser automonitoramento; a superlotação migre dos presídios para as universidades; as despesas com presos diminuam, deixando de ser uma preocupação do Estado, que poderá investir a sobra em laboratórios de pesquisa, livros, instrumentos musicais, professores...

As despesas básicas de alimentação, energia, água, saúde... hão de se manter, mas não com prisões e presos, e sim, com alunos e pesquisadores, dentre outros. E, aos poucos, a ressocialização dará lugar à socialização. Onde se planta violência, colhe-se violência, mas onde se planta amor, colhe-se sabedoria e dedicação, onde se planta conhecimento, colhe-se informação.

Estou a falar de um processo a longo prazo, porém efetivo. Outro dia, detentos, em Rio Branco, fizeram uma falsa greve de fome, em prol de melhorias, inclusive alimentar, no dia seguinte, a fiscalização encontrou um estoque de comida escondido nas celas. Enquanto milhares de pessoas morrem de fome todos os dias, presos simulam fome. A comida renegada pelos exigentes presos foi distribuída aos famintos venezuelanos. Foram mais de 1,2 mil lanches (pão e café com leite). É um estranho paradoxo em que, de um lado, presos recusam comida gratuita, do outro, os “livres” perecem de fome e imploram por empregos. São esses “livres” que mantêm os reclusos.

Não bastasse a fome e suas sequelas, veio a Covid-19 para provocar a insônia no mundo. Novamente, é preciso contar com a consciência humana para evitar a propagação do mal. Mas o mundo continua faminto. São fomes de todos os sabores: mercado, bolsa, sistema, poder... Contudo, o que se vê servido é a incapacidade de empatia.

Enquanto o mundo se encontra em colapso epidemiológico, há um medo que ronda a humanidade, deixando-a sem resposta no cenário de dúvidas: Como? Por que? Até quando? O poeta mineiro, de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “O medo”, descreve liricamente um período de conflito, questionando e negando a ordem social daquele instante.

E nessa cumplicidade que há entre a literatura e a história, Benedetto Croce, ensina: “A poesia é um fato histórico [...], que tem a sua própria qualidade, diferente dos demais [...], e, se como todos os demais ela parte da realidade determinada, o seu ir além e criar consiste na conjugação intuitiva e na fusão do particular com o universal, do indivíduo com o cosmos [...]. Por isso, a sua interpretação histórica é no próprio ato, interpretação estética, que não é negação da historicidade. (CROCE, 1967, p. 98).

“Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: [...]. Nosso destino, incompleto. // E fomos educados para o medo. / Cheiramos flores de medo. / Vestimos panos de medo. / De medo, vermelhos rios / vadeamos. // Somos apenas uns homens / e a natureza traiu-nos. / Há as árvores, as fábricas, / Doenças galopantes, fomes.”

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


















 

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