05/03/2020 às 08h15min - Atualizada em 05/03/2020 às 08h15min

Bordado Richelieu

IVONE GOMES DE ASSIS

Quem poderá nos proteger? Esta é a pergunta que tira o sono de muitos brasileiros, sobretudo brasileiras. Apesar das muitas leis, cresce a todo instante o número de vítimas por perseguição. A mente “doentia” é algo que desassossega o mundo, investindo seu tempo para a prática do mal. Faz-se urgente tomadas de decisões voltadas para a filantropia, a fim de ensinar, desde cedo, a importância do amor ao próximo. É comum vermos ataques verbais às igrejas, mas, o que seria do país se não fosse o exímio trabalho de amor ao próximo, que elas pregam diariamente? A proteção vem sendo bordada em richelieu, em que, de um lado têm-se a bonita e perfeita política planeada, do outro, as lacunas, os vazios, da realidade vivida.

Nesta semana, pela primeira vez, a justiça aplicou medidas protetivas a uma vítima de stalking. Para alguns, o stalking pode até parecer ameno, mas não é, e nunca foi. Dia após dia, pessoas se arrastam em tratamentos intermináveis, atacadas pela violência psicológica, marcada pela perseguição. Perseguição, esta, que, muitas vezes, leva pessoas a síndromes incuráveis, ao exacerbado medo, capaz de induzir o sujeito ao suicídio.

A Defensoria Pública de São Paulo entendeu que o stalking (violência psicológica, com perseguição digital, ou presencial) afeta, proeminentemente, a integridade física, psicológica e moral da vítima. Com esta tomada de decisão da defensora pública Mariana Chaib, a Lei Maria da Penha se amplia no cenário de proteção contra a violência no âmbito doméstico. Ainda assim, o “bordado em richelieu” se mantém presente, estampando o espaço de tempo que há entre a determinação e o cumprimento da pena, entre o acurado e o realizado. E o que fica, como sustentação, é o medo, porque palavras nem sempre seguram balas; e facas não se desamolam com leis.

É preciso repensar, com mais humanidade, a forma de se fazerem eficazes as determinações. Penso, eu, que o ensino social está na propagação do amor. Só amor é capaz de evitar o adoecimento das mentes, que, uma vez adoecidas, sempre haverá sequelas. As academias, as boas comunidades, os núcleos religiosos, os grupos culturais... são fontes que prezam pelo bem viver, mas tudo isso só terá efeito se dentro de cada um houver uma luzinha chamada consciência, que aciona o querer, e que se entrelaça na família.

Quase sempre, a vítima é jovem, o que facilita o ataque. Mas no “bordado em richelieu”, que decora a realidade, exibe-se o que brilha aos olhos, esquecendo-se do perigo que são as agulhas que o faz. Se no bordado reforça-se a “segurança garantida”, nos detalhes vazados estão os comprobatórios. Por exemplo, alegar que imagens de câmera de segurança não comprova flagrante. Enquanto isso, o dia a dia vai se remontando em mais crimes e mais vítimas.

Tomo emprestado um conceito de Pierre Bourdieu (p. 270), ele fala sobre a Arte, mas eu ilustro sobre a Arte de Viver: “Mas essa estrutura comporta sempre uma parcela de indeterminação, ligada especialmente ao fato de que [...] os agentes [...] dispõem sempre de uma margem objetiva de liberdade (que podem ou não apreender segundo suas disposições "subjetivas") e de que essas liberdades adicionam-se no jogo de bilhar das interações estruturadas, abrindo assim um lugar, sobretudo nos períodos de crise”.

Na obra “O homem e seus símbolos”, Carl G. Jung (p. 49) declara: “Na nossa vida consciente estamos expostos a todos os tipos de influência. As pessoas estimulam-nos ou deprimem-nos, ocorrências na vida profissional ou social desviam a nossa atenção. Todas estas influências podem levar-nos a caminhos opostos à nossa individualidade; e quer percebamos ou não o seu efeito, nossa consciência é perturbada e exposta, quase sem defesas, a estes incidentes. Isto ocorre em especial com pessoas de atitude mental extrovertida, que dão todo o relevo a objetos exteriores, ou com as que abrigam sentimentos de inferioridade e de dúvida envolvendo o mais íntimo da sua personalidade”. Quem poderá nos proteger?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.




















 

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