23/02/2020 às 08h00min - Atualizada em 23/02/2020 às 08h00min

A coragem de ser imperfeito

ALICE GUSSONI E ÉRIKA MESQUITA
Receita de hoje é o Tiramisu, sobremesa típica italiana | Foto: Marcel Gussoni

Já mencionei aqui que, há tempos pesquiso o Wabi Sabi, uma estética e filosofia japonesa que aborda a beleza do imperfeito. Explora a harmonia do que é espontâneo, como o próprio fluxo da natureza. Numa época onde os padrões de beleza são tão artificiais e forjados, o Wabi Sabi é o antídoto que nos convida a enaltecer e admirar as coisas como são, as rugas, os trincados, os ciclos naturais da vida. A beleza autêntica. Através dessa pesquisa, constantemente me aparecem artigos muito interessantes, assim como filmes e livros que abordam o tema. A minha feliz descoberta mais recente foi o livro “A coragem de ser imperfeito”, de  Brené Brown.

Não imaginamos o quanto o sentimento de vulnerabilidade emoldura nossas ações cotidianas. Está tão presente e invisível quanto o ar que respiramos. Desde o nosso primeiro dia de aula, até a escolha do seu almoço de hoje. É ele quem constrói seus escudos, e inconscientemente ele também faz suas escolhas. Nos esforçamos na construção de uma imagem de força e sucesso, algumas vezes tão sólidos quanto a casca de um ovo. No entanto, a natureza humana é rodeada de medos, decepções e falta de aceitação, a própria e dos que estão no entorno.

Mas a verdade é que a vulnerabilidade é uma enorme demonstração de força. Ter humildade para encará-la de frente e se dispor a lidar com ela, é uma grande demonstração de verdadeira força, maturidade e coragem. Quando nos sentimos inferiores, ou sentimos inveja, por exemplo, reagimos entrando na concha e nos isolando, ou partimos pro ataque, agindo com agressividade. Inconscientemente, nos sentimos tão diminuídos pelo outro, que nossa mente acredita fortemente que ele é que está te agredindo. É comum perceber isso quando acontece algo de bom nas nossas vidas. Fazer uma linda viagem, trocar de carro, publicar um livro, ficar grávida. Alguém te conta de um avião que caiu, um bebê que morreu. Sempre aparece alguém pra te dizer que o que quer que você esteja fazendo, está fazendo isso errado.

É mais difícil perceber quando está dentro de nós, mas também reagimos mal ao nos sentirmos pequenos. A próxima vez que alguém te fizer uma crítica construtiva, repare nos pensamentos malucos que aparecerão na sua cabeça. No livro, Bréne Brown entrevista centenas de pessoas. São perguntas comuns como: Quando você se sente vulnerável? Ou: De quê você tem mais medo? E as respostas nos contam que os monstros que nos atormentam são os mesmos. Ficar desempregado, não ser amado, medo de errar, medo de morrer, medo de não ser feliz e, pasmem, medo de ser feliz. Já te aconteceu de estar se sentindo tão feliz que pensa que algo de ruim está pra acontecer?

Outro ponto incrível do livro é o que estamos fazendo com os nossos “ismos”. Machismo, feminismo, veganismo, etc. As causas que defendemos com afinco, dão sentido às nossas vidas, mas podem ser ninho, escudo ou arma.  As mulheres são massacradas, todos os dias, inclusive por elas mesmas. Em atitudes passivo agressivas que julgam absolutamente qualquer atitude sua. Já deixou de ser simpática e amiga de um cara por medo de ser devorada por um tufão sem nem saber de qual lado veio? Já se vestiu mal só pra ter paz? Já ouviu que se maquiar, depilar, ou qualquer ato de amor próprio, foi feito só pra pegar alguém?

Homens são bombardeados pelo julgamento de serem fracos, falidos ou ter sua masculinidade questionada por absolutamente qualquer motivo. Eles também são questionados pela sua forma de se vestir e se comportar. A única diferença são as “punições” que sofrem.

Todos os dias pessoas são ofendidas por comerem carne, e também por não comerem. Por comerem carboidrato e não comerem. Por serem de esquerda ou de direita. Batemos para não apanhar. Nos tornamos, portanto, especialistas em enfiar o dedo na ferida alheia, para desviar a atenção da nossa própria ferida. Pós doutorandos em atirar pedra nos tetos vizinhos. Mas por dentro, tememos profunda e dolorosamente sermos rejeitados. Inadequados.

Mas segundo o livro, a libertação está em se desarmar. Assumir que somos bons o bastante, e que errar nos permite um aprimoramento constante. Ter compaixão com os erros dos outros. Sentir gratidão pelo que conquistamos até hoje. Uma amiga sempre me dizia: “Jesus pediu que nos amássemos, não que nos amassássemos.”

Essa receita é uma versão da sobremesa de maior sucesso na Itália. Tirare su, em italiano, significa “puxar pra cima”, e na minha opinião, é de fato um dos maiores levantadores de astral comestíveis. Comfort food de primeira. Como poderia não ser deliciosa uma combinação de café, creme e chocolate? A original vai mascarpone e gema de ovo, mas esse creme é um substituto à altura.
 
TIRAMISU
 
Ingredientes
– 500 ml de creme de leite fresco
– 150 g de bolacha champagne
– 1 copo americano (200 ml) de café bem forte
– 1 xícara de café (50 a 60 g) de açúcar
– 150 g de cream cheese
– 150 g de raspas de chocolate
– frutas e cacau em pó para decorar
 
Preparo
Derreta o chocolate por 2 minutos em potência média no micro-ondas. Coloque uma folha de papel alumínio sobre um prato ou bandeja, e faça desenhos de chocolate com a ajuda de um garfo. Leve à geladeira. Bata o creme de leite fresco por 2 minutinhos, até ele encorpar um pouco. Acrescente o cream cheese e o açúcar e desligue. Monte o tiramisu fazendo camadas de bolacha regadas com algumas colheradas de café, o creme, mais bolacha com café, mais creme, e finalize com o chocolate. Coloque umas frutinhas por cima, e polvilhe um pouco de cacau.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.














 

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