30/01/2020 às 08h45min - Atualizada em 30/01/2020 às 08h45min

Amor e gratidão

Ivone Assis
Amor e gratidão são dois sentimentos que estampam a obra infantil “Atum, o gato grato”, da paulista Thais Laham Morello, com a ilustração da paulistana Juliana Basile. A narrativa, por ser infantil, é bem lúdica, e é construída na figura de um gato doméstico, cheio de habilidades. Também o gato Atum pode, facilmente, ser identificado como uma criança, ou um idoso, ou uma pessoa qualquer, em plena atividade. A obra apresenta uma psicologia de vida, que aborda desde os hábitos, passando pelas manias, até chegar às habilidades, mas sempre focada na convivência de um lar amoroso, que, apesar dos limites necessários, não impedem Atum de sonhar e viver sua liberdade e seus sonhos.

Assim que abrimos o livro, o narrador evidencia a gratidão impregnada no gato Atum. Em seguida, apresenta a diversidade, os limites impostos, os sonhos e as certezas que habitam no bichano (2017, p. 7): “Tem nome de peixe, passeia de coleira como um cachorro e, quando olha para o espelho, tem certeza de que é um leão”. Ora, ora, aqui não temos dúvidas do quanto Atum é amado. Mas a narrativa nos lembra a máxima: “Quem ama cuida”, pois Atum leva uma coleira, acessório, este, que têm o objetivo de proteger o animalzinho, assim como o cinto de segurança protege o humano. Por outro lado, a coleira também serve para impor limites, quando necessário, uma vez que a vida tem regras e uma boa educação compreende tais regras. Embora seja um gato, seu nome é de peixe, mas ele traja como um cachorro, e, dentro de si, sente-se um leão. A plena aceitação desta diversidade no interior de Atum é fruto de um lar fundamentado no diálogo, no amor e na prudência.

Atum é um gato velho, que lembra suas grandes conquistas e aventuras, da juventude, e usufrui da compreensão e presença da família. Já na velhice, ele exerce o papel de professor, conselheiro, confidente. Nem tudo são flores, mas, apesar das diferenças e do ritmo puxado, Atum está sempre a surpreender, sem nunca deixar de ser ele mesmo, com suas peraltices, manias e habilidades. Atum “sabe abrir um armário, gosta de tomar banho, mas não se deixa escovar” (2017, p. 8). Como sonhador que é, Atum vive plenamente suas sete vidas, explorando suas aptidões e realizando seus sonhos: “Equilibrista, jardineiro, terapeuta, cozinheiro, astronauta, marinheiro e construtor” (2017, p. 10).

A história apresenta a linha do tempo do velho gato. E essa linha pode representar as sete etapas vividas de Atum, que pode muito bem representar o desenvolvimento de um ser: primeiros passos, brincadeiras, disciplina, aprendizagem no lar, sonhos de adolescente, migração para a vida adulta, profissão. Contudo, em cada etapa, Atum dá o máximo de si, procura inovar, compartilha seu conhecimento, enfrenta seus medos e barreiras, vive aquilo que lhe propicia prazer e saúde, tem seus momentos de sonhos (de mundo da lua), diverte-se com os amigos, doa de si, mas também recebe dos amigos, porque sabe que a vida é feita de compartilhamento. Não importa a circunstância, Atum conquista seu público e agradece veementemente, por toda a atenção, o amor, a partilha, o cuidado, recebidos. Sobretudo em sua atual condição de aposentado.

A leitura que faço desta obra é a importância do convívio familiar, do diálogo, do respeito, da moderação... enfim, o valor de amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, aventurar-se sem pisar em ninguém, sonhar alto e contentar-se com as pequenas conquistas. Viver com autorresponsabilidade, ou seja, viver conscientemente, cada etapa da vida, na certeza de que a família é uma engrenagem, aonde cada um ocupa (ou deveria ocupar) seu espaço. Não nos esquecendo, porém, de que excluir machuca e incluir suaviza. Não há terapia que substitua a confiança, o afeto, o diálogo... O convívio familiar é o maior centro de formação que há, daí a importância de se fazer uso do sim e do não, na hora certa; de se reconhecer os bons instrutores; ser produtivo e ter foco, amor e gratidão.








 
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