14/01/2020 às 08h37min - Atualizada em 14/01/2020 às 08h37min

Lourenço Mutarelli está de volta

Chico de Assis
O título acima tem duas mentiras. Mutarelli, embora tenha morrido e ressuscitado várias vezes, nunca partiu e também não está voltando a produzir quadrinhos.
Desde sua primeira autopublicação no final dos anos 80 com os fanzines “Over 12” e “Solúvel”, passando pela publicação na primeira metade dos 90 de álbuns como “Transubstanciação”, e a partir de 1999 já na editora Devir com a história do detetive Diomedes nas quatro partes da trilogia do acidente, Lourenço vivenciou essa jornada, ou peregrinação, que é produzir e publicar quadrinhos no Brasil. Com “A Caixa de Areia”, em 2006 essa jornada se encerra, ou faz uma pausa nunca se sabe.

Toda sua produção nessa linguagem recebeu muitas premiações, e apresenta sempre uma qualidade artística narrativa inquestionáveis, momentos sublimes estão sempre presentes nas histórias curtas “Estampa Forjada” e “Morfologia”, por exemplo, publicadas em “Mundo Pet”, a única onde seu trabalho saiu em cores, ou mesmo em trabalhos do início de carreira republicados na coletânea Sequelas. Mas “A Caixa de Areia” talvez seja mesmo sua obra-prima.

Depois da leitura de “Capão Pecado” do escritor Ferréz, que traz uma dedicatória a Mutarelli, ele resolve experimentar a literatura, e apresenta em 2002 “O Cheiro do Ralo”, devolvendo a Ferréz a dedicatória. Seu livro chama a atenção rapidamente no meio literário e acaba sendo adaptado para o cinema em um longa-metragem de Heitor Dhalia. Novas portas se abrem e Lourenço realiza trabalhos em cinema, teatro, artes visuais além de continuar na literatura, com uma produção intensa. Como efeito colateral se afasta dos quadrinhos. Embora tenha publicado, por insistência de editores o “Quando meu pai se encontrou com o fazia um dia quente” e encartado uma HQ experimental no livro “O Grifo de Abdera”, os quadrinhos já não são uma linguagem central para o autor.

Mas de volta ao título, qual é a volta? Não é outro senão o próprio Ferréz, completando um instigante ciclo, que junto com a editora Comix Zone traz em um grande álbum a reunião dos trabalhos: Transubstanciação, Desgraçados, Eu te Amo Lucimar e a Confluência da Forquilha, compilando a fase dos quadrinhos de Mutarelli de 1991 a 1997 sob o apropriado título de Capa Preta.

As histórias em quadrinhos no Brasil nunca tiveram um cenário tão rico e diverso, e quem o contempla talvez não saiba que há poucas décadas tudo isso era um tanto diferente. Muitos grandes artistas nacionais hoje rendem homenagens e fazem citações do trabalho de Lourenço Mutarelli. Não restam dúvidas de que ele é um marco nessa trajetória. O fato desses trabalhos agora republicados terem ficado tanto tempo fora de catálogo dizem muito mais sobre a inaptidão ou desinteresse do mercado editorial que sobre a qualidade dos trabalhos. , talvez, o futuro seja esse mesmo, tomar em nossas próprias mãos esse “mercado editorial”. Viva Mutarelli, Viva Ferréz.
 

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





















 
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