28/11/2019 às 08h10min - Atualizada em 28/11/2019 às 08h10min

Mundo ensimesmado

IVONE GOMES DE ASSIS

Autoestima e amor próprio estão intrinsicamente conectados, e sem um o outro não sobrevive. Ser um pouco narcisista ajuda a compor o sujeito, mas havendo excessos, teremos aí um sério problema, porque o mundo não gira em torno de um. A mitologia exemplifica esse sentimento por meio do mito de Narciso, sujeito que, ensimesmado com sua própria beleza, perde a vida.

Freud aborda esse quesito, alertando para as consequências dos delírios de grandeza que habitam as psicoses. Por falar em psicose, a contemporaneidade tem apresentado um cenário curioso e assustador, em que a mulher, ao alargar suas conquistas, provoca insegurança no homem. Daí, os ensimesmados, atordoados por seus fantasmas, partem para a violência contra a mulher.

De um lado a mulher quer autonomia, amor e gentileza. Do outro, o homem exige subserviência e silêncio. Ora, em uma vida a dois não pode haver disputas. Deus ensina a amar e não a amarrar. A condição cultural dominante, que o homem carrega em si, é um dos grandes transgressores do amor, levando para dentro de casa a agressão física e moral, desencadeando um trauma psicológico, que reflete sobre todos, impedindo a boa convivência e apagando o amor.

A guerra que se inicia dentro de si, explode em casa e ganha dimensão nas ruas. E o espelho de narciso vai refletir, por certo, os monstros que habitam o ego de cada um. Acuados, desencadeiam uma onda de violência, o que não é novidade, como se constata na história. Quem nunca ouviu falar da inquisição? Da crucificação? Da forca? Da guilhotina? Do pelourinho? Do tronco? Do chicote? Da chibata? Da palmatória... todos estes são elementos de coerção contra o outro. E especificamente contra a mulher, há ainda o “cinto de castidade” e a coibição da liberdade.

Atualmente, a violência tem se pautado em três estratégias: o ataque sexual, o assassinato, a impunidade. É lamentável que o AMOR não esteja em primeiro plano na mente humana. A vida é curta demais para que se semeie ódio, para que se desperdice amor. Ninguém precisa ter posse de ninguém. Para ser feliz, basta compartilhar o amor, dialogar, respeitar as diferenças.

A juventude precisa ter mais ensinamentos sobre o que é amar e respeitar, para que, na ausência do amor, o respeito assuma o controle.

O ensimesmado é incapaz de enxergar o outro. A vida não pode ser pautada no jogo de interesses, onde cada qual só enxerga o próprio ego. É preciso ver além do próprio umbigo.

O mundo está carente de afeto, se cada um doar um pouquinho de si em prol do outro, logo irá notar que doar-se impede a solidão e a insegurança, ampliando os horizontes. “A todos os homens é compartilhado o conhecer-se a si mesmos e pensar sensatamente” (HERÁCLITO, 1973).

De “butuca” no planeta, Ademar Inácio da Silva, em “Apesar da barbárie” (2017, p. 41), denuncia: “A morte cospe fogo pela faca e pelo cano; infiel é fulano: extermínio, genocídio, decapitação, homicídio...”. Ao mesmo tempo em que descreve a loucura humana, narrando (p. 40): “O silêncio berra em meus ouvidos para que eu lute pela justiça, pois o sangue inocente não sacia a besta, ridícula e desmedida gana humana de poder”, Ademar Silva, resignado, dedica sua obra “Às crianças vítimas das atrocidades humanas, resultantes do egoísmo e disputa pelo poder, e às pessoas de bem, que renegam submeter-se ao ceticismo quanto à humanidade”, na convicção de que o mundo pode ser melhor.

Ainda, o poema “Tobogã” (p. 34), do autor Ademar Inácio da Silva, chama a atenção do homem, anunciando que “A vida desliza no tempo, vai brincando de tobogã. Tão veloz quanto o pensamento, funde o hoje com o amanhã. Quando menos então se espera, tem-se, já, por completo o ciclo (o efêmero se desespera e termina pagando o mico). Pisa o doze o ponteiro grande, persegue, o fim, ao recomeço, relançar-se qual bumerangue, porém, outro é seu endereço. A vida desliza no tempo, tão veloz quanto o pensamento”. O gatilho da violência faz o mundo ensimesmado.

*O conteúdo destacoluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 

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