02/11/2019 às 14h00min - Atualizada em 02/11/2019 às 14h00min

Uma visita inesperada

JOÃO BOSCO

Por volta das três horas da tarde, estava só em casa, calmaria total, aproveitei para reler Flaubert e, a razão para tal, relembrar-me, não sei por que, das desventuras de uma mulher que apostou num casamento para se libertar e se viu preza numa vida insípida, sem perspectivas e que para remediar, aventurou-se no adultério. No sofá, absorto na leitura, um pequeno ruído, uma criatura e, de primeira, não deu outra, deu meus olhos nos olhos dela, penetrantes, verdes pedra marinha, num corpo delgado, na justa medida, com viço e pouca idade e ficou ali, indecisa: olhou para um lado, para o outro e eu ali, sentado no sofá, inerte, neutro diante de quem me trazia de volta do mundo romântico de uma Emma Bovary dilacerada, atordoada e condenada a um fim trágico. A visitante baixou o olhar e caminhou em minha direção — parecia até que sentia o meu estado emocional — aconchegou-se no sofá ao meu lado e me acariciou com o seu corpo. Uma hora depois deu uma lambidela na minha mão, despediu-se com um miau e se foi embora para nunca mais. Que gata!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 

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