18/10/2019 às 08h11min - Atualizada em 18/10/2019 às 08h11min

O Julgamento do Lobo Mau

CLÁUDIA MIRANDA | ATRIZ E PROFESSORA DO CURSO DE ARTES DA UFU
Foto: Divulgação

O Lobo Mau é um personagem presente na nossa vida desde a primeiríssima infância; ele aparece em nosso imaginário amparado principalmente pelas histórias de "Chapeuzinho Vermelho" e de "Os Três Porquinhos". Nessas e em outras histórias, o Lobo aparece como mau, safo, espertalhão e cruel; esse estereótipo é construído nessas fábulas e aceitamos o fato de o Lobo sempre ser o malvado. Mas o Grupo zerovirgula1 resolveu levar para a cena o julgamento do Lobo: será que ele é realmente mau?  

Nesse último final de semana, dias 12 e 13 de outubro, o grupo zerovirgula1 de teatro estreou no Circuito Independente do Teatro de Uberlândia (Citu) a nova versão de "O Lobo", que teve sua primeira versão em 2015 e seguiu com outras versões em 2016 e 2018. Dessa vez, a peça teve a batuta do diretor e ator Call Oliver, que apostou em um número menor de atores e a utilização de bonecos para contar essa divertida história.

O espetáculo inicia-se com a música conhecida das aberturas dos filmes de contos de fada da Disney, ativando nossa memória em relação à história a ser contada, pois em cena já estão os icônicos personagens Chapeuzinho Vermelho e o boneco Cícero - o porco da casa de palha - interpretados pela atriz Carol Evangelista; os inocentes personagens que foram prejudicados pelo Lobo Mau e por isso o acusam de, entre outras coisas, invasão à domicílio e por prender uma velhinha no armário. Logo o Lobo entra na cena e a tensão se estabelece. Entretanto, o Lobo Mau, interpretado por Célio D’Ávila, quer provar sua inocência. Para presidir esse julgamento é convocado o nobre cavaleiro andante Dom Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro invisível Sancho Pança, apresentado por Call Oliver. Com essa mistura de histórias e personagens podemos já perceber que a memória que nos foi sugerida pela música inicial dos tradicionais contos de fadas será posta em cheque, afinal essa é a história do Lobo.

Para advogar em defesa do Lobo nos é apresentado o boneco de Pinocchio, manipulado por Célio, que tem uma excelente qualidade: a de não poder mentir. E ainda para depor a favor do Senhor Lobo entram em cena a Bruxa Má e Vovozinha, manipulados por Call e Carol; essas duas personagens trazem à tona revelações de Chapeuzinho e Lobo que fazem cair por terra todas nossas expectativas em relação aos personagens postos em cena.

Essa versão brinca, em sua dramaturgia, com o universo dos memes, tão conhecido por crianças e jovens na boca dos tradicionais personagens. Essa aproximação dos vídeos viralizados na internet atiça o riso frouxo do público. Apesar dessa atualização para criar uma relação mais próxima com o espectador, o texto aponta algumas fragilidades nas relações estabelecidas pelas personagens, dando espaço para cacos e diálogos improvisados que minam a potência que o texto pode ter.

Com destaque para os bonecos confeccionados por Luciano Pacchioni e para os solos da Bruxa Má e a dublagem de "Livre Estou" feita pelo Lobo, a peça brinca de uma maneira divertida e debochada com nosso imaginário das fábulas e histórias ali misturadas. Vale ainda pela busca de identidade do jovem grupo que se reinventa e se coloca sempre em jogo.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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