20/10/2019 às 14h00min - Atualizada em 20/10/2019 às 14h00min

O colar

JOÃO BOSCO

É uma bela ave a excêntrica piaya cayana. Sem exageros: ela é a Gisele Bündchen dos pássaros. Ela tem um rabo longo e bonito. Tem uma plumagem contrastante, de combinação monocromática, olhos vermelhos rubi e bico verde esmeralda. Todavia, ao contrário de nós, ela não gosta de aparecer, de ser notada. É discreta, furtiva se camufla nos galhos das árvores. A minha alma, definitivamente, não se assemelha a uma alma-de-gato, quero dizer: a uma piaya cayana. Não consigo viver sem querer aparecer. Sem aparecer, a vida humana não faz sentido, murcha, estagna, depressiona (esse verbo é meu). De modo geral, mal acordamos, saímos ao mundo a aparecer. Com a posição, a troca de carro, a casa de campo, o barco, o avião, a esmola...  É tão óbvio, não? Querer aparecer vem de pai para filho. Para o filho a melhor escola, nela ele aparece e eu também. E tudo se repete. Por que o nativo se pinta, por que o urbano se tatua? Por que uma argola no braço? Eu gosto de aparecer. Para tanto, só não sei se colocaria um colar de araticum no pescoço.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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