15/10/2019 às 08h29min - Atualizada em 15/10/2019 às 08h29min

Da mesa de bar ao Prêmio Camões

ENZO BANZO

Há quem diga que não há espaço para a poesia em nosso tempo, ou que não há mais tempo para a poesia em nosso espaço. Mas a poesia, é bom que se diga, não é um texto limitado à vida no papel. Desde que passamos a viver em uma sociedade tecnológica midiática, a comunicação poética passou a encontrar na canção popular um largo campo de difusão. Esse terreno é diferente do território da grafia, pois ganha vida no som, na voz, é bom que se cante. A palavra poética, aqui, se apresenta amalgamada à melodia e ao jeito de cantar.
 
Em variados níveis de elaboração, a forma de poesia que mais se alastra entre nós é esta que chamamos "música popular". Tal linguagem artística tem se constituído como o principal meio de veiculação da língua portuguesa falada no Brasil pelo mundo: "olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça". Roda o globo e está aí, em qualquer canto.
 
Dia desses, por exemplo, eu estava tomando uma na Alfaiataria com Mariana Anselmo, ouvindo o cantor Edson Denizard. No meio do repertório, este grande intérprete me aparece com uma versão meio blues (Maurício Winckler na guitarra) de "O Estrangeiro", de Caetano Veloso. Fiquei prestando atenção naquele ambiente de aparente amenidade, a noite de um bar, as pessoas conversando, e em como ninguém estranhava a densidade poética dos versos que por ali cruzavam: "um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas". E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, arrepiava com a potência daquele acontecimento.
 
Saindo de lá, atravessamos a rua e passamos no Ovelha Negra, onde rolava uma homenagem a Belchior. Dentro do bar, o clima era de total catarse, toda gente dentro da canção, o público e a banda sendo a mesma unidade, todas as vozes uma voz única: "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"; "a felicidade é uma arma quente". Estava ali a poesia, todo mundo a conhecia.
 
Lembro certa vez, quando tocava com o grupo EmCantar, em que tivemos a honra maior de acompanhar Pena Branca. É claro, tocamos "O cio da terra". Difícil era segurar o choro para acertar os acordes do violão. Os versos desta canção na voz do Pena alcançavam a máxima identidade de sentido entre o que se canta, quem canta e como se canta: "forjar no trigo o milagre do pão". Pena Branca & Xavantinho, ao lado de Grande Otelo, são as maiores expressões nacionais e mundiais desta nossa cidade, que é negra, quem andou pelas ruas no final de semana pela Festa do Congado sabe do que estou falando.
 
O que Pena Branca & Xavantinho fizeram com "O cio da terra" é gesto similar ao de João Gilberto com a bossa nova. É o intérprete quem resolve a questão. A criação só ganha sentido na voz. O compositor vê só aí a concretização de seu intento. E muita gente não sabe que, no caso desse nosso clássico sertanejo, os compositores são os ditos "emepebistas" Milton Nascimento & Chico Buarque. Comprovando a percepção de que a força de maior alcance de nossa poesia se encontra na poética cancional, este mesmo Chico Buarque (romancista, dramaturgo, mas sobretudo compositor popular) é o atual vencedor do Prêmio Camões, a mais importante honraria literária dos países falantes de nossa portuguesa língua.
 
Mas parece que um certo capitão não quis assinar o prêmio. É curioso que Camões foi militar, e que, como poeta, cantou as glórias das conquistas portuguesas: "as armas e os barões assinalados". Mas a guerra vencida pelo poeta maior foi a da edificação de sua língua, e isso ele alcançou pelas palavras. O prêmio dado a Chico se deve à importância de seu legado para nossa língua. Se o capitão não sabe falá-la, lê-la, ou escrevê-la, é melhor mesmo que não assine. A poesia segue solta e segue viva. E, multiplicada em milhões de vozes, segue e soa na canção, cio da língua.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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