10/10/2019 às 08h06min - Atualizada em 10/10/2019 às 08h06min

Influências

IVONE GOMES DE ASSIS

Estamos na era dos influenciadores digitais. Isso é interessante, traz novidades e esquisitices. Talvez sua parte mais atraente seja observar o comportamento tanto do influenciador como do espectador. Nesta semana, enquanto contactava alguns influenciadores, deparei-me com Cecília Meireles. Ah, não, ela não ressuscitou. Na verdade, ela nem morreu. É contraditório, mas eu explico: Morreu o corpo de Cecília, mas a influência cultural dela está mais viva do que antes. Poetisa, escritora, jornalista, professora... e influenciadora, não digital, isso não existia no tempo dela, mas cultural. Cecília influenciava e influencia na leitura, no desejo de aprender, que explode dentro dos seus leitores. Ela é uma referência nacional singular. Sua obra chega leve, sem medo, despretensiosa, e vai desassossegando o leitor, convida para a brincadeira de rimas, sugere teatro, tripudia com as palavras em leveza de bailarina e, quando pensamos que não, eis a psicanálise ali, a observar cada construção literária, assuntando o social, o outro... enfim, isto e aquilo. Analisando as personagens de Cecília, não há como negar o quão influenciadoras são. Um exemplo é o Mosquito que escreve, traquina, com cheiro de peraltices: “O mosquito pernilongo / trança as pernas, faz um M, / depois, treme, treme, treme, / faz um O bastante oblongo, / faz um S. // O mosquito sobe e desce. / Com artes que ninguém vê, / faz um Q, / faz um U, e faz um I. / Este mosquito / esquisito / cruza as patas, faz um T.  // E aí, / se arredonda e faz outro O, / mais bonito. / Oh! / Já não é analfabeto, / esse inseto, / pois sabe escrever seu nome. / Mas depois vai procurar / alguém que possa picar, / pois escrever cansa, / não é, criança? / E ele está com muita fome”.

O poema citado apresenta mais que o movimento do mosquito, (d)enuncia a maldade, o ato traiçoeiro, a mentira, enfim, “O Mosquito escreve” exibe a política e a sociedade no falho sistema em que se pousa de artista, enquanto o desconhecimento, a ganância e a fome se juntam para exemplificar o poema.

O pai de Cecília faleceu antes de ela nascer, e a mãe também se foi quando Cecília estava com três anos de idade. Ora, a vida de uma criança órfã, geralmente, é cheia de medos, indagações e silêncios. Então, apaixonada pela música, Cecília Meireles trocou a palavra cantada pela palavra escrita. Com isso, o vazio da infância se enroscou nas histórias, enchendo os livros. Mas desde cedo Cecília aprendeu que ou se tem “isto ou aquilo”, “Ou se tem chuva e não se tem sol, / ou se tem sol e não se tem chuva! [...] Quem sobe nos ares não fica no chão, / quem fica no chão não sobe nos ares”. Neste poema, entre dúvidas e incertezas, o eu-lírico apresenta o imperativo da escolha, pois, para se ter algo é necessário abrir mão de outro algo. É o paralelo do doar e receber.

Mas, o vazio também é cheio e vice-versa, e o mundo da palavra, do diálogo, comporta o infinito real ou imaginário, assim, Cecília explica: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta”. Agora, enquanto ouço a chuva lá fora, penso em Cecília, pois “Neste mês, as cigarras cantam / e os trovões caminham por cima da terra, / agarrados ao sol. / Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, / e depois a noite é mais clara, / e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão”.

Solto um grito de alegria: CHUVA! Mas a sala vazia dá um eco, e ouço repicar uva, uva, uva. Lembro-me, mais uma vez, que Cecília escreveu: “O menino pergunta ao eco / onde é que ele se esconde. / Mas o eco só responde: ‘Onde? Onde?’ / O menino também lhe pede: / ‘Eco, vem passear comigo!’ / Mas não sabe se o eco é amigo / ou inimigo. / Pois só lhe ouve dizer: / ‘Migo!’”. Pensando nisso, e também pensando na chuva e na uva, convido meu eco a tomar café. Ele repete: fé, fé. Corro a escrever, porque, neste momento, Cecília, Eco, Chuva, Uva, Café, Fé... são meus influenciadores digitais.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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