06/10/2019 às 10h00min - Atualizada em 06/10/2019 às 10h00min

Superação, o insubstituível ingrediente da vida.

Foto: Divulgação

Um belo dia, quase sem querer, descobri que estava grávida. Quando perguntei para a médica se ela tinha certeza, ela respondeu: "Sim, muita." Cheguei em casa sem conseguir respirar direito, mas me acalmei pensando que talvez não fosse verdade. Semana seguinte, quando fosse fazer o primeiro ultrassom, teria certeza. Na semana seguinte, no primeiro minuto de exame, a médica disse:
- Vamos ver se tem um bebê aqui… huummmm... tem sim, e são dois!
- Meodeusdocéu, doutora, você tem certeza? - Perguntei, com o coração saindo pela boca.
- Muita - Ela respondeu com o tom de mais absoluta normalidade.

Era então um fato. Estava muito grávida mesmo. Já há dois meses. Então segui os próximos três meses como os melhores da minha vida. Me senti extremamente bem-humorada e plena. Sinto até hoje saudade dessa pessoa tão bem resolvida que fui. Nada me abalava. Até as pessoas mais desafiadoras não me incomodavam. Eu as achava simplesmente exóticas. Aonde quer que estivesse, na chuva ou no sol, sentada ali na cadeira, éramos três. Era a coisa mais linda apresentar o mundo para esses dois brotinhos de mim. Lia, ouvia e saboreava tudo que considerava o que existia de melhor. Queria presenteá-los com uma abundância dos sentidos.

Mas toda essa alegria desmesurada durou pouco. Eles começaram a querer nascer, ainda minúsculos. Tinham apenas um quilo. Sentia contrações o dia todo. Precisei ficar no hospital e em repouso absoluto. Um deles, ou ambos, poderiam não sobreviver. Vinte dias depois, sem estar ainda preparada, eles nasceram. Não tinha feito mala com lindas roupinhas vermelhas. Nem avisado os parentes. Não fiz as unhas, na verdade mal deu tempo de trocar de roupa. Simplesmente caí numa correnteza de acontecimentos e acordei no dia seguinte sem barriga nenhuma no quarto do hospital, totalmente sozinha. Não éramos mais três. Sinceramente, eu mal era uma.

Foi o nascimento deles e o meu. Ali, uma versão de mim se foi e nunca mais apareceu. Outra Alice nasceu. Meus pequenos brotinhos foram para a UTI. Se você tem o privilégio de não conhecer a UTI neonatal, posso te contar como é. Meus minúsculos brotinhos ficaram num útero de plástico, que são frios e tem cheiro de álcool. Nenhum “bom dia” ecoa realmente bom. Na verdade, parece um inferno gelado. O líquido parental entra por tubos dentro das suas pequeninas veias, suprindo o leite que não pude dar. Outros tubos levam oxigênio para dentro do nariz. Outros levam gotas de leite para dentro da boca. Outro cabinho preso a um micro dedinho controla os batimentos cardíacos.

São muitos tubos em um corpo absurdamente minúsculo. As máquinas que os faziam sobreviver me consolavam contando as batidas dos seus minúsculos corações. Contava uma por uma. Adorável fofoqueira, me mostrava que viviam, enquanto os médicos nos ignoravam.

A primeira vez que eu e um filho meu nos demos as mãos, quando o abraço ainda não nos tinha sido permitido, foi quando enfiei a mão na janela da estufa, então uma minúscula mão se entrelaçou à ponta do meu dedo, como se abraçasse o todo. Não tive o direito de dar a eles as devidas boas-vindas ao mundo por um tempo. Uma mãe desolada que todas as noites voltava para casa e via dois berços vazios.

Talvez por isso hoje eu queira abraçá-los insistentemente a todo momento, gritar alto aos quatro ventos: Meus amores, sejam bem-vivos. Que seja uma vida tão rica e abençoada. Que não nos faltem motivos para desfrutá-la. E assim seguimos, quase nove anos depois, uma vida tão linda quanto se pode almejar. Foi tudo muito bem superado. Ainda continuamos nos abraçando o tempo inteiro, como se fizesse dias que não nos víssemos. É deliciosa a relação que construímos.

Acredito que somos, um para o outro, grandes mestres. Os aprendizados que Caio e Theo me trazem são incomparáveis. Nenhum pós-doutorado, viagem, carro, dinheiro no mundo poderiam ter me proporcionado algo parecido. Para nós, foi perfeita a vida assim como ela foi acontecendo, ainda é. A superação é o ingrediente que deixa qualquer receita da vida muito mais saborosa. A receita de hoje é muito simples, leva três dos meus ingredientes preferidos.
  
RECEITA

Palmito grelhado com queijo manteiga

 
Ingredientes
- 400g de palmito fresco
- 150g de queijo manteiga ou requeijão de raspa
- 1 alho-poró
- Sal, azeite e folhas de manjericão
 
Preparo
Corte os palmitos ao meio horizontalmente. Coloque para grelhar em uma frigideira bem quente com um fio de azeite. Se a frigideira for de ferro, melhor ainda. Deixe-os grelhar primeiro na parte reta, depois vire e acrescente o sal e o alho-poró fatiado. Quando o palmito estiver bem dourado em ambos os lados, desligue o fogo e despeje por cima o queijo cortado em cubinhos e o manjericão. Desfrute!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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