20/09/2019 às 08h39min - Atualizada em 20/09/2019 às 08h39min

O tempo e o destino na estação de trem

CARLOS GUIMARÃES COELHO

Muitos são os signos e metáforas contidos em “Flores Arrancadas à Névoa”, peça encenada no último fim de semana dentro da programação do Circuito Independente do Teatro de Uberlândia (Citu), projeto divisor de águas na cena teatral da cidade. E eles são perceptíveis e latentes por terem duas boas e experientes atrizes em cena, Maria de Maria e Vilma Campos, e uma direção segura e criativa de Ana Carneiro.

Com imagens poéticas, o espetáculo nos permite um recolhimento reflexivo, trazendo à cena a alma em exílio rumo a destinos desconhecidos. É belo no sentido da sua plasticidade e potência das interpretações e agonizante por nos roubar os sentidos frente à ameaça de, não mais que de repente, nos vermos refugiados de nossa pátria e de nossa existência. Aída e Raquel, respectivamente Maria e Vilma, são personagens que nos agonizam. Ainda que em alguns momentos essas representações pareçam invertidas no texto, uma é do campo da arte, do pensamento artístico e imagético de um mundo dissolvido, e a outra da ciência, ponto racional para a compreensão e interação desse mesmo mundo. Nesse contraste entre emoção e razão, revelam-se os temores, as partidas rumo ao que se não conhece, a parte tolhida de pensamentos motores da construção (e evolução) humana.
Uma viagem aterradora que parecia lúdica ao início do espetáculo, na estação do trem, se desenha com sustos a partir da imersão na espiral do tempo, atmosfera brilhantemente acentuada pela inserção da diretora de uma terceira personagem, vivida por Luciano Pacchioni, o mascarado destino brincante, também demarcador da contra-regragem e dos efeitos sonoros para a tensão cênica que se propõe.

Imagens do inconsciente nos são arrancadas assistindo ao espetáculo. Passageiros que somos em nossa experiência como espectadores, ficamos à mercê das atrizes em sua carga emotiva e de todo o desenho estabelecido pela diretora.

É sabido, a não ser por aqueles que insistem na rasadura da vida e do fazer teatral, que a arte, desde sempre, carrega consigo a crítica social. E desde sempre também ela confronta o poder, qualquer tipo de poder.  Embora essa montagem tenha tido o seu início em uma época menos conturbada no olhar sobre a cultura e sobre a censura, no invólucro da razoabilidade, qualquer olhar minimamente atento percebe que “Flores Arrancadas à Névoa” nos parece mais atual do que nunca.

Mesmo em se tratando de um texto de um outro lugar e de uma outra época, artifícios cênicos sublinham essa contextualização. Belo texto, diga-se de passagem, de autoria do argentino Arístides Vargas, ele próprio um exilado, com tradução de Luiz Carlos Leite. É atemporal por expor nossa fragilidade na relação com o poder estabelecido e universal por trazer ao palco a linha tênue que delimita a liberdade de expressão diante desse mesmo poder. A montagem lindamente assinada por Ana e defendida de forma veemente por Maria e Vilma é essa representação contextualizada para o que se vive hoje, o que, para alguns, pode passar despercebido e/ou dividir opiniões.

Ao fim percebemos atravessar o espetáculo apenas um relato da viagem. Um arremate mais que perfeito para o desfecho de um contexto assustador. A atmosfera deixa de ser a de horror do destino vivido e da vida que se deseja devolvida, para a tranquilidade da estação de trem, nada além de o espaço onde cruzamos as nossas viagens, voluntárias ou não.  

Como se pudéssemos construir sonhos em nossos exílios.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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