15/08/2019 às 08h30min - Atualizada em 15/08/2019 às 08h30min

Violência

IVONE GOMES DE ASSIS

Sob os escombros do preconceito, a vida é banalizada todos os dias. Sob a mira da injustiça e da impunidade, vidas são ceifadas diariamente. Nesta semana, o adeus a Dyogo Costa Xavier de Brito foi encantado pela oração de sua irmã de 7 anos, que mutilada pela dor, clamava a Deus para que ninguém ali presente viesse a passar pelo vale de dor que eles estavam atravessando. Dyogo, alvejado pelas costas, combaliu-se ao chão, em Niterói, enquanto ia para o treino de futebol. As balas que ceifaram sua vida, pegaram a rota errada. O menino de 16 anos, que sonhava em ser atleta, tornou-se estrelinha, sob a dor dos familiares e amigos. E quantos, dia após dia, não sofrem o mesmo desfecho, vítimas do engano e/ou da brutalidade humana?

Carlos Drummond de Andrade, no poema “Receita de Ano Novo”, escreve para que “[...] as coisas mudem / e seja tudo claridade, recompensa, / justiça entre os homens e as nações, / liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, / direitos respeitados, começando / pelo direito augusto de viver”.

Este mesmo poeta, em “Os ombros suportam o mundo”, escreve: “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. / Tempo de absoluta depuração. / Tempo em que não se diz mais: meu amor. / Porque o amor resultou inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco”. Estes versos são da década de 1930, mas é como se acabassem de “sair do forno”, tão atual e necessário se fazem.

Todas as manhãs, e horários de almoço, e horários do jantar, os noticiários se encarregam de pintar de vermelho-sangue a tela da TV, como não bastasse a dureza de cada dia. Praticamente não há notícias de produtividade, inovação e encontros de paz, porque isso não impacta. Até parece que o telespectador prefere estarrecer-se diante do obtuso, do insano... entalar-se com uma garfada de tragédia, a saborear uma dose de cultura.

As notícias mais parecem fotografias de matadouros, narrando a violência de dia, contra o próximo, contra os amantes, contra a mulher... Invoco, aqui, o poema “Destruição”, de Drummond, que diz: “Os amantes se amam cruelmente”. “Dois amantes que são? Dois inimigos. / Amantes são meninos estragados”. Muitas pessoas preferem se digladiar a ver a individualidade do outro. É preciso que haja menos alienação para que se veja o amor.

Ora, ora, “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili, / que não amava ninguém [...]”. Drummond, por meio dessa metáfora poética ensina que o amor é uma dança, na qual os pares se trocam, pois os desejos mudam, as vontades se desencontram e, na “roleta” da felicidade, nem todos os jogadores são contemplados.

Em carta, publicada na obra “O encontro marcado”, de Fernando Sabino (1956), o psicanalista e escritor brasileiro, Hélio Pellegrino escreve: “O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências [...]. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo [...], é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma [...].” (Hélio Pellegrino).

Está na hora de buscar caminhos mais sábios... descansar à sombra da natureza, para entender o canto da passarada, enquanto o sol escaldante esquenta a moleira daquele que desconhece o valor da copa de uma árvore. Cecilia Meireles (1983, p. 209), em “Narrativa” ensina: Andei buscando esse dia / pelos humildes caminhos / onde se escondem as coisas / que trazem felicidade [...] / Só achei flor de saudade [...]”. Nem por isso devemos parar de sonhar, nem mesmo permitir que o medo nos faça reféns. Apesar de tanta angústia, é o amor que deve ser celebrado, pois o medo apaga a esperança, sob os escombros do preconceito.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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