13/08/2019 às 08h30min - Atualizada em 13/08/2019 às 08h30min

Caetano e a tradição

ENZO BANZO

No último dia 7, Caetano Veloso completou 77 anos. O artista, que personifica a guinada contemporânea de nossa canção e cultura, é hoje um senhor de quase 80. Mas talvez não haja tanta diferença entre o homem velho e o garoto superbacana que chacoalhava, tímido e espalhafatoso, a tradição de nossa música popular em fins dos 1960. Sua última série de discos de inéditas, a trilogia "Cê/ Zii & Zie/ Abraçaço", lançada entre 2006 e 2012, seria suficiente para cravar um artista como marca de seu tempo (o nosso), mesmo que não fosse tudo que já tinha sido. De 2013 pra cá, o Brasil mudou (pra pior), Caetano é figura constante nos embates políticos que desde então nos atormentam, enquanto prolifera sua poética pelo país e pelo mundo, primeiro ao lado de Gil, agora junto dos filhos. Sua obra está longe de se dar por encerrada. De meu lado, estou sempre a aguardar um álbum de novas composições. Virá?
 
A imagem do homem velho costuma ser associada à ideia de tradição, o que, em Caetano, poderia incorrer em uma aparente contradição. Afinal, o filho de Dona Canô surge como centro revolucionário da estética da mistura tropicalista, cercado por guitarras-totens quando eram tabu: no canto uma coca-cola, no corpo a mais nova moda. Um campo artístico estendido ao cinema, às artes visuais, ao teatro, à literatura, todas as artes em suas mais contemporâneas e avançadas formas.
 
Mas, por outro lado, toda essa combinação ultramoderna se dá no terreno de uma tradição cuja fonte Caetano não se cansa de retomar: o cancioneiro popular brasileiro. Bebeu tanto dessa água, saboreada quando criança no rádio e nos sambas de roda, que seu surgimento para o grande público se dá não como compositor, mas como craque de um programa televisivo dos anos 1960 chamado "Essa noite se improvisa". O que levava à vitória? Lembrar letras de canções em que aparecesse uma palavra proposta pelo apresentador. O então pouco conhecido irmão de Maria Bethânia, assim como Chico Buarque, sempre ganhava, dada sua imensa memória sobre o repertório de nosso cancioneiro.
 
Quando surgiu a composição "Tropicália", Caetano Veloso foi logo aproximado pelo poeta concreto Augusto de Campos da antropofagia modernista de Oswald de Andrade. Associação esclarecedora para o próprio Caetano, que ainda não conhecia Oswald, e que passou, a partir daí, a assumir o tropicalismo como um "neo-antropofagismo". Entretanto, em seu livro "Verdade Tropical", o artista revela o ponto de partida da composição, que não está nem na poesia modernista, nem na instalação do artista plástico Hélio Oiticica, que levava o mesmo título. "Tropicália" foi composta a partir do samba "Coisas nossas", de Noel Rosa (década de 1930), crítica sobre o Brasil que já rimava bossa com palhoça. Caetano anunciava sua revolução, sustentado na tradição.

Ao longo de sua obra, são muitas as citações diretas ao conjunto de canções que o antecederam e o formaram. Este procedimento se dá com tal naturalidade, que mal notamos que o verso final de "Sampa" ("que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João") retoma a melodia e o cenário de "Ronda", de Paulo Vanzolini ("cena de sangue num bar da Avenida São João"); que na última estrofe de "Terra" ("nas sacadas dos sobrados da velha São Salvador... a Bahia tem um jeito"), os versos são um excerto de "Você já foi à Bahia?", de Dorival Caymmi; e que aquele "deixa eu gostar de você" do refrão de "Nosso estranho amor" é citação melódica e textual da conhecidíssima marchinha "Quem sabe, sabe". Ai, neguinha! Ai, morena!

Não há tanta diferença entre o superbacana e o homem velho, porque Caetano sempre foi, ao mesmo tempo, juventude e tradição. Para trás e para frente - tempo, tempo, tempo, tempo. Com 77 anos, já tem coragem de saber que é imortal.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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