06/08/2019 às 08h16min - Atualizada em 06/08/2019 às 08h16min

Tocar o coração das pessoas

NANDO LOPES

Há pouco vi um homem subindo um lance de escadas segurando a mão de seu filho. Observei repetidas vezes o entusiasmo da criança ao conseguir escalar cada um dos degraus com passos desconcertados e amparados pelo seu protetor. Paciente, o pai conduziu o filho em segurança frente às suas recém-descobertas. Decerto, naquelas lacunas do cotidiano, o amor devia se fazer presente, embalando os ciclos de cuidados e apreço.

Vai ver que a felicidade tem a ver com os instantes em que compartilhamos afetos sinceros com aqueles que estão do nosso lado. Ou, quem sabe, a felicidade se esconda por detrás da leveza de um entardecer sem angústias e ansiedades. Quando o sol se põe lá fora e tinge de diferentes cores as nuvens grafitadas no céu, também nos lembramos de despedir de mais um dia que a vida nos concedeu e de sermos gratos pelas pessoas que fazem parte da nossa história. Fitar a luz de um dia esvaindo no horizonte é apreciar uma obra de arte visível para tantos e perceptível para poucos, em tempos que lutamos contra o relógio. Encantar-se com a poesia escondida por detrás de cada coisa é um gesto de resistência frente à indiferença que embrutece a cada dia as nossas relações. Tantas coisas se perdem nas labaredas dos dias, o que importa são as boas histórias que vivemos e quem são as pessoas que estamos de mãos entrelaçadas.

Tive os meus primeiros contatos com a poesia de Cora Coralina durante a infância. Os versos livres da poetisa, que nasceu na cidade de Goiás em agosto de 1889 e dedicou-se a escrever sobre as coisas simples do cotidiano, tão cedo prendeu a minha atenção. Lembro quando li “Saber Viver” da escritora e jamais pude esquecer estes notáveis versos que aqui transcrevo: “Não sei/ se a vida é curta/ ou longa demais para nós. / Mas sei que nada do que vivemos/ tem sentido/ se não tocarmos o coração das pessoas. / Muitas vezes basta ser: /o colo que acolhe, / o braço que envolve, / a palavra que conforta, / o silêncio que respeita, / a alegria que contagia, / a lágrima que corre, / o olhar que acaricia, / o desejo que sacia, /o amor que promove”.

Estes versos me levaram não só a contemplar a delicadeza poética de Cora Coralina, mas também mudei o meu olhar sobre a vida a partir daquela leitura literária. Passei a observar que as melhores coisas vividas têm a ver com os bons sentimentos que despertamos uns nos outros. Como é bom ser acolhido por um abraço, quando estamos exaustos de tantas palavras. O afeto é o tempero que dá gosto aos nossos dias e sem ele não parece que nos resta muita coisa. Há muito sentimento por detrás das cores percebidas em cada alvorecer e nos instantes nos quais um pai vela o crescimento de um filho. Cuidados que também permanecem quando o ciclo da vida é invertido e são os filhos a zelar pelo bem-estar de seus pais quando eles envelhecem. O amor e a felicidade são vias de mão dupla em nossa história.

Ouço as pessoas desejarem umas às outras “muitas felicidades”, ou ainda estimarem “seja feliz”, repetidas vezes. É comum assim nos pronunciarmos quando alguém coleciona mais um ano de vida, consegue êxito em mais uma etapa da sua jornada ou parte para realizar os seus sonhos em outro lugar. Entoamos os mesmos votos de felicidades àqueles a quem nos afeiçoamos, pois talvez a vida não faça muito sentido se não pudermos sentir a felicidade junto dos nossos. Quando tocamos os corações das pessoas, nossos dias tem mais sentido.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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