30/07/2019 às 08h31min - Atualizada em 30/07/2019 às 08h31min

Casa aberta, cinema em pé

ENZO BANZO

Chego na Trupe de Truões em meio a uma roda de conversas conduzida por Iara Magalhães. Está rolando a 3ª Mostra de Cinema Casa Aberta, no espaço do grupo, por eles organizada. Iara não faz parte da Trupe, e penso em como sua figura é fundamental para o cinema por aqui. Sétima Arte, era esse o nome da locadora da Iara, com seus filmes em VHS organizados por diretor, e alguém vindo quase da roça, como eu vinha, podia saber o que era Fellini, Pasolini, Lars von Trier, Stanley Kubrick, Win Wenders, Abbas Kiarostami.
 
Iara levantou e levanta a bola do cinema nessas terras, e a bola segue entre um sem fim de pés e mãos. A ponto de se conduzir, em um final de semana, por um grupo de teatro. E por que um grupo de teatro estaria organizando uma mostra de cinema? É que a Trupe de Truões, em algum momento da existência, entendeu que era um grupo cultural, para além de um conjunto de atores e atrizes. Abraçaram a possibilidade da cultura como modo de vida completo: meio de sobrevivência material, meio de dar sentido à própria vida. Não pararam de produzir suas peças, mas a elas juntaram um espaço cultural e a condução de projetos vários, não limitados ao teatro ou às suas próprias produções. Daí o desejo de abrir a casa, tomar um chá com a Iara Magalhães, com os diretores, produtores e trabalhadores do cinema da cidade e de outros cantos.
 
Sim, trabalhadores do cinema. Cultura é profissão, pessoas vivem disso para além do mundo do estrelato. Gera-se capital financeiro e simbólico. Projeta-se a imagem de um país, de uma cidade, de um tempo, de um povo. Enquanto um certo senhor fala em acabar com a Agência Nacional do Cinema e busca demonizar o trabalho − muito trabalho − de quem povoa o campo da cultura, por aqui um grupo de teatro resolve, mesmo sem patrocínio, apresentar uma seleta de produções audiovisuais independentes. A casa se abriu, o cinema nos recebeu, de pé.
 
Se lá na Sétima Arte encontrávamos os clássicos e os grandes contemporâneos do cinema, na Casa Aberta pudemos nos deparar com obras consistentes e comoventes de gente que a gente vê por aí, lançando olhares sobre a cultura de cá. Acompanhei só uma amostra da mostra, e o que assisti proporcionou-me um sentimento de revelação de forças escondidas sob nosso nariz de triângulo: quem acha que conhece esse sertão, mal compreende o que há na terra entre um passo e outro. O sertão − da Farinha Podre − é o mundo.
 
O terreno revelado manifesta-se tanto no conteúdo dos filmes quanto na linguagem cinematográfica de seus criadores. Em "Cantigas de Orixá", de Isley Borges, uma casa de candomblé nos leva ao mais longe do tempo e espaço de África, no poder do canto memorizado e repassado entre gerações para se comunicar com o todo do universo. Em "Entre Cerrado e Caçarolas", de Nara Sbreebow, natureza e cultura, normalmente percebidas em distinção, caminham juntas no chão arenoso da gente de nossa paisagem, em sustentação mútua: de um pedaço de uma árvore nativa preservada, se extrai um doce e uma tradição.
 
E em "Wagão", de Alex Oliveira, Roberto Camargos e Yuji Kodato, deparamo-nos com um jovem gênio que converge no movimento de ruptura e experimentação artística que, inesperadamente, costuma brotar por aqui. Atitude de vanguarda presente no objeto e na linguagem do filme. Mais do que conhecer Wagner Salazar, inventivo diretor teatral que chacoalhou esse pedaço nos anos 1980 até sua morte precoce, a obra nos faz vivenciar Wagão, na materialização cinematográfica de seus roteiros, na confusão dos tempos de lá e de agora, na profunda dor de sua voz poética escrita a mão. Nada mais pessoal e íntimo que uma caligrafia. O cinema, assinado.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

Tags »
Relacionadas »
Comentários »