25/07/2019 às 08h42min - Atualizada em 25/07/2019 às 08h42min

Poesia-minuto

IVONE GOMES DE ASSIS

O que é a poesia, senão um manifesto do poeta, exigindo transformação por meio das formas? Basta que observemos as poéticas do alemão Brecht ou do brasileiro Drummond e encontraremos ali a forma clamando pelo desenvolvimento do conteúdo social. É como se assistíssemos Medeiros e Albuquerque e Leopoldo Miguez escrevendo e entoando o hino da Proclamação da República, cujo refrão exclama: “Liberdade! Liberdade! / Abre as asas sobre nós! / Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos tua voz!”. Depois, os compositores do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, para o carnaval de 1989, fazendo uso do contexto social, deu nova roupagem aos dois últimos versos, e nasceu “Liberdade! Liberdade! / Abre as asas sobre nós! / E que a voz da igualdade / Seja sempre a nossa voz”. Refrão este que virou faixa do CD de Dudu Nobre.

É a poesia se remoçando diariamente, em busca de (re)significar a sociedade. É, outra vez, o apelo poético de Carlos Drummond de Andrade, de Bertold Brecht e de tantos outros, informando que a poesia é viva, é transformação por meio da forma.

É uma exigência libertária, que o poeta clama, seja das influências calamitosas de civilizações, ou governos, ou instituições, ou grupo social... em decadência, seja do mero comodismo que estrangula o homem no seu cotidiano.
É um círculo de desenvolvimento que se inicia nos materiais e salta para os imateriais. É como se observássemos a moda, cuja tendência começa no produto e finaliza na aceitação, no desejo imorredouro que as pessoas passam a ter, a fim de consumir tal produto.

A palavra também exige estilo, ritmo, transformação dos processos formais. É nisto que se explica a poesia, em seu terreno de escrita e de desempenho do ator, naquilo a que chamamos de estrutura da arte. É a palavra se vestindo de consciência social e estética.

Quando leio o poema “Elogio da dialética”, de Bertold Brecht: “A injustiça vai por aí com passo firme. / Os tiranos se organizaram para dez mil anos. / O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser / Nenhuma voz senão a voz dos dominantes. / E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez. / Já entre os súditos muitos dizem: / O que queremos, nunca alcançaremos. / Quem ainda é vivo, nunca diga: nunca! / O mais firme não é firme. / Assim como é não ficará. / Depois que os dominantes tiverem falado / Falarão os dominados. / Quem ousa dizer: nunca? / A quem se deve a duração da tirania? A nós. / A quem sua derrubada? Também a nós. / Quem será esmagado, que se levante! / Quem está perdido, que lute! / Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido? / Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã. / De nunca sairá: ainda hoje. (BRECHT, p. 149, tradução de Haroldo de Campos)”, vejo aqui “as gentes” da minha contemporaneidade, no desatino social em que se encontram.

Na semana passada o menino Sam, de 14 anos, angustiado com o bullying que sofria na escola, se atirou diante de um trem sob o olhar incrédulo dos colegas; nesta semana, o pugilista russo Maxim Dadashev, 28 anos, sofreu um nocaute que o levou à morte; um número “sem fim” de mulheres (crianças, adultas e velhas), vítimas de violências: estupro, assassinato... foi registrado. Casos distintos, com desfechos comuns: a banalidade a que a vida foi submetida. Onde estão as pessoas? Por que razão ninguém enxergou estes seres antes que o trágico “espetáculo” acontecesse”?! Onde está o homem, que não enxerga seu semelhante?

Parece até uma nêmesis da sociedade planejada, é uma geração que exige retaliação até mesmo nas coisas mais infundadas. É um princípio autoritário que conduz as questões humanas de forma desumana. É uma cegueira que não se explica.

A vida pede mais verdade, menos mentira. Mais felicidade, menos tristeza. Mais amor, menos ódio. Mais esperança, menos desilusão. Mais solução, menos armadilha. Menos ignorância, mais sabedoria, mais ação, mais amor. A vida é poesia-minuto.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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