16/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 16/07/2019 às 08h00min

Façamos silêncio, canta João

ENZO BANZO

João silenciou? Não. É a nós que cabe a busca pelo estado de silêncio para ouvi-lo, como sugere a emblemática capa de seu último disco de estúdio, "João voz e violão" (2000). Agora, tempo de sua partida, muito nele se fala. A morte, como os aniversários, é período de celebração de um certo eu, de uma certa vida. Eu mesmo cumpri meu ritual, reouvindo discos, assistindo shows pela internet, muitos dos quais não conhecia.
 
É comum, nesses momentos, a aparição de histórias e vídeos, família e amigos sendo entrevistados, gente próxima dando seus depoimentos, que muito nos enriquecem. Mas, no caso de João, há um sem fim de anônimos e desconhecidos, nos quais me incluo, que devem muito do que são à sua figura e expressão: não só quem canta, compõe, toca violão ou é músico, mas toda gente que vivencia a música brasileira de 1959 pra cá. Todos somos, de alguma forma, tributários de João Gilberto.
 
Essa herança que felizmente carregamos muitas vezes nem passa pelo contato direto com o próprio João, tamanha a irradiação do que inventou. Alguns podem dizer, por exemplo, não gosto de bossa nova, sou da linha romântica, adoro Roberto Carlos. Está aí um cantor que só canta como canta graças a João. O rei Roberto é o oposto do vozeirão pré-bossa nova, instaurando, na linha de João, um canto que se projeta como um sussurro de intimidade.
 
Ou quem sabe alguém retruque, que bossa nova o quê, eu sou do rock. Pelo menos no Brasil, desde que o rock acontece, ele passa por João Gilberto. A começar pelo próprio Roberto do iêiêiê. E radicalizando-se no movimento tropicalista de Caetano e Gil, declarados devotos de João que assumiram a guitarra elétrica em contraposição às concepções puristas da época. Lembro do jovem rockeiro transgressor Cazuza cantando "Faz parte do meu show", e percebo João não só nessa canção, mas em todo seu canto-fala macio, contando casos, besteiras. Reouço, sem ligar o som, Arnaldo Antunes saboreando cada sílaba da canção "Exagerado", do mesmo Cazuza, em arranjo de voz e violão, exagerando na contenção. A música como radicalização da possibilidade expressiva e da sensibilidade: o que quer o rock, o que quer João.
 
E é preciso destacar o impacto do baiano de Juazeiro na reinvenção do canto feminino, sendo muito feminino o próprio canto de João. Não é difícil delimitar a trilha que passa por Nara Leão, Gal Costa, Elis Regina, Maria Bethânia, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, e mesmo pela nossa maior rockeira, Rita Lee, que cantarola baixinho em seu álbum Bossa'n'Roll: "João Gilberto é que é esperto, tá nessa faz tanto tempo".
 
Repasso minha própria experiência. Entrei na aula de violão aos 11 anos, meu professor era o oposto do erudito, mas jamais admitia que tocássemos o instrumento com a parte externa da mão direita, no estilo folk americano. A mão era pra dentro, dedos encaixados nas cordas. Cada novo acorde dissonante era uma celebração. Toquei e cantei por anos tendo um contato superficial com a obra de João, sem saber que o seguia. Quando, depois de muito tempo, parei para ouvi-lo, tudo se tornou claro e novo. Meu mundo mudou.
 
Com João não dá pra cantar junto, distraído na repetição de uma canção conhecida. Sua voz caminha solta, às vezes se antecipando, às vezes prolongando-se, na emissão contida de afinação absoluta, sobre aquela base que é uma só e que não para de se alternar. A rítmica do canto de João Gilberto reinventa a composição, desafia qualquer estrutura ou partitura, faz daquele canto um falar sempre novo no tempo presente. Seu cantar é no aqui e no agora, nunca se repete, nem para ele, nem para a público. Sorte a nossa podermos nos constituir como parte deste ritual, pois cabe a nós o exercício privilegiado de reconstruí-lo, redescobri-lo e recriá-lo, a cada nova audição. O som está ligado. Façamos silêncio. Canta, João.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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