06/06/2019 às 08h00min - Atualizada em 06/06/2019 às 08h00min

Seus motivos

IVONE GOMES DE ASSIS
Em seu estica e encolhe a vida vai cumprindo sua trajetória. Nesta semana, ao longo de seus 96 anos muito bem vividos, a portuguesa Agustina Bessa-Luís “assinou sua última crítica”, “fez seu último ensaio”, deixando seu rascunho para que a memória possa decifrá-lo.

Foi lendo a intrigante frase “O homem de Deus é menino pela confiança e é adulto pelo reconhecimento da paz do coração”, que me iniciei na leitura de Agustina Bessa-Luís.

Escritora respeitada pela crítica como ficcionista, a vasta produção literária de Agustina Bessa-Luís rendeu-lhe muitos prêmios, entrevistas, estudos... realizações. A sua invejável lista de produção literária, que permeia entre romance, biografias, poemas, passando pela ficção, ensaios e outros, avança para mais de uma centena. Ao contrário do que se prega, de que escritor “de primeira viagem” não alcança sucesso, foi com sua primeira produção, a novela/ficção “Mundo fechado”, de 1948, que Agustina Bessa-Luís saltou para o podium dos grandes nomes. Depois vieram vários outros, como “A sibila” (1954), “A muralha” (1957), “As pessoas felizes” (1975), “As fúrias (1977), “Um bicho da terra” (1984), este já é um romance histórico-biográfico de Uriel da Costa. Aliás, Bessa-Luís escreveu tanto romances histórico-biográficos como biografias. Sua produção foi intensa. Algumas obras com mais notoriedade, outras com menos, o que é comum a todo autor. Ela escrevia sobre o sujeito, com suas conquistas, seus fracassos e todos os outros sentimentos comuns à natureza humana.

Bessa-Luís faz uma "visita à casa paterna". “A busca da História é uma necessidade, individual e coletiva, de se resolver um problema”. Sua visão de compreensão do homem e/ou de mundo faz-me lembrar o sociólogo francês Émile Durkheim, o qual apresenta o conceito de consciência coletiva de uma sociedade como sendo aquilo que faz com que os sujeitos tenham atitudes semelhantes, vinculadas às práticas culturais.

Agustina Bessa-Luís escreve: “É um pouco como uma pessoa que tem uma neurose e, para se defender dela, visita a casa paterna. No fundo, esse interesse pela História é, um pouco, uma visita à casa paterna. Como escritora portuguesa que sou e como tradutora dessa inquietação coletiva, dou-lhe um significado mais demonstrativo, mas que está em todos nós”.

É nesta inquietação que Bessa-Luís (re)faz a história, como processo criativo da escrita, lendo o homem e escrevendo os sentimentos. Em seu acervo, encontra-se a frase “A razão é como a mulher honestíssima e sem parentes, que em tudo está falta de auxílio e de liberdade”. É assim, por meio do saber e da crítica, que Agustina vai justificando suas premiações.

Dentre suas frases de inquietação, encontramos ainda: “A essência das coisas não está na filosofia, nem na política, nem em qualquer função intelectual. Está na reciprocidade do inconsciente que não encadeia só o que é humano, mas até o que é apenas vegetal ou inerte”. Aí a autora convida o sujeito a um autoexame de consciência, pois “a cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade”.

Como homenagem a Agustina Bessa-Luís, pelo legado cultural-literário que nos deixou, anotarei aqui o poema de sua autoria “Garras dos sentidos”: “Não quero cantar amores, / Amores são passos perdidos, / São frios raios solares, / Verdes garras dos sentidos. / São cavalos corredores / Com asas de ferro e chumbo, / Caídos nas águas fundas, / não quero cantar amores. // Paraísos proibidos, / Contentamentos injustos, / Feliz adversidade, / Amores são passos perdidos. / São demências dos olhares, / Alegre festa de pranto, / São furor obediente, / São frios raios solares. / Dá má sorte defendidos / Os homens de bom juízo / Têm nas mãos prodigiosas / Verdes garras dos sentidos. // Não quero cantar amores / Nem falar dos seus motivos”.
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