28/05/2019 às 08h00min - Atualizada em 28/05/2019 às 08h00min

Visita ao oásis de Huacachina

NANDO LOPES
Conta a lenda que uma jovem princesa banhava tranquilamente quando foi interceptada por um caçador que planejava lhe raptar. A princesa conseguiu desvencilhar do seu algoz e a piscina na qual ela tomava banho transformou-se em um lago; já o véu que ela sempre usava transformou-se em dunas de areia em volta do lago. A jovem, por sua vez, tornou-se uma sereia, passou a habitar aquele espaço e fez dele a sua fortaleza contra os perigos do mundo afora. O local é conhecido como deserto de Huacachina. Um oásis paradisíaco que fica próximo à cidade de Ica no Peru e localizado a 300km de distância de Lima.
 
Se a lenda é verídica ou não, vai depender das suas crenças e da sua imaginação. A história oral atravessa as gerações e seus detalhes variam a cada vez que é contada. Corrobora com a lenda o cenário paradisíaco que desponta aos olhos de todos que vão conhecer o Oasis. Quando conheci Huacachina, encantei-me com o lago emoldurado por palmeiras e dunas de areias brancas. Cogitei estar diante de uma miragem comum àqueles que transitam longo tempo pelo deserto, embora fosse pouco provável por ter chegado até lá no conforto de um carro com ar condicionado. Por lá havia turistas do mundo todo e a paisagem encanta os que aventuram a descer as dunas ou que do alto delas contempla o pôr do sol. Andar no vilarejo que se formou nas proximidades do lago, e que alimenta as histórias de uma sereia que transita por ali durante a madrugada, me fez pensar o quanto somos seres inventivos e vivemos no limite entre a realidade e a ficção.
 
Fui informado por um guia turístico que Huacachina significa “Mulher que chora” e logo percebi que aquelas palavras eram associadas à imagem incrível de um lago em meio ao deserto, mas também estavam relacionadas as histórias fantásticas que ouvi. As águas esverdeadas que compunham o oásis eram impróprias para um banho e me fizeram pensar nas dores que vistas de longe parecem tão encantadoras como aquelas águas, mas que ninguém deve tocá-las quando se aproxima por não conseguirmos dimensionar o efeito delas em nós. Mergulhar em algumas dores pode ter o efeito de um refúgio ou de uma infeliz prisão.
 
Após o sol se pôr, algumas pessoas escalam as dunas do deserto para contemplar as estrelas. Observei o breu solitário nas ruas do vilarejo que contorna o lago de Huacachina e pensei nas palavras de Jack Kerouac em “Sozinho no topo da montanha”: “Pensando nas estrelas noite após noite começo a perceber que as estrelas são palavras e todos os incontáveis mundos da Via Láctea são palavras, e esse mundo também o é. E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de ideias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida pelo que ela é e não forme ideias preconcebidas de espécie alguma”.
 
Tomando para mim a interpretação pessoal daquelas palavras que um dia li e crendo que tudo está fluindo em minha mente, talvez eu também possa conceder vida àquela lenda peruana e crer que aquelas águas tão belas e insalubres sejam o refúgio ideal para a dor que pouco compreendemos e que vez em quando vem nos visitar. Desconfio que seja melhor manter intocáveis algumas dores a exemplo das gotas de água que compõe o lago de Huacachina. Conta a lenda que o cântico da sereia é fascinante e que desvendar os seus encantos é certamente letal.
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