30/04/2019 às 08h14min - Atualizada em 30/04/2019 às 08h14min

Hábito de leitura

NANDO LOPES
O brasileiro lê em média 4,96 livros inteiros ou em partes por ano, indica a quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, publicada pelo Instituto Pró-livro (2016). Entre as motivações para ler um livro, a justificativa “gosto” foi a mais mencionada por 25% dos entrevistados. Quando distribuídos os dados sobre a motivação para ler um livro por faixa etária, o termo “gosto” foi mencionado por 40% das crianças na faixa etária de 5- 10 anos e também por 42% dos entrevistados na faixa etária de 11- 13 anos, aponta o Instituto.
 
Confesso que imaginei que a justificativa “exigência escolar” seria o termo predominante nas faixas etárias escolares até os 13 anos. Mas, para o meu espanto, apenas 22% dos entrevistados de 5- 10 anos e 12% dos entrevistados de 11- 13 anos apresentaram a “exigência escolar” como justificativa para ler um livro. Certamente o incentivo à leitura é importante para despertar o interesse pelos livros e não deveríamos deixar de instigar as pessoas a lerem sempre mais, desde a infância, ainda que hoje tenhamos outras possibilidades para o desenvolvimento das competências intelectuais. Afinal, foram nos tempos de infância que muitos profissionais deram os seus primeiros passos em direção à sua vocação, incluindo alguns escritores que atribuem o seu ofício aos estímulos dos pais e dos seus professores.
 
Em sala de aula, após a correção da sua prova, o escritor Jorge Amado ouviu de um professor que ele tinha vocação para trabalhar com as palavras, configurando um dia muito importante na vida do autor baiano. O escritor conta a entrevistadora Edla Van Steen, no livro “Viver e Escrever”, que o antigo professor tanto elogiou a sua redação, como também lhe emprestou os primeiros livros literários que ele leu, entre os títulos: “A viagem de Gulliver”, do escritor irlandês Jonathan Swift. Foram precoces os primeiros contatos de Jorge Amado com a escrita, já que aos 14 anos de idade ele publicou um poema na revista “A Luva” e começou a trabalhar no “Diário da Bahia”. Não apenas jornalistas e escritores literários, mas tantas outras pessoas desenvolveram habilidades pessoais e despertaram para uma vocação a partir da leitura.
 
Ainda que o gosto pela leitura deva ser despertado desde a infância, a prática da leitura nos acompanha anos a fio e contagia as pessoas que estão ao nosso redor. Reforça a pesquisa Retratos da Leitura (2016) que “o hábito de leitura é uma construção que vem da infância, bastante influenciada por terceiros, especialmente por mães e pais, uma vez que os leitores, ao mesmo tempo em que tiveram mais experiências com a leitura na infância pela mediação de outras pessoas, também promovem essa experiência às crianças com as quais se relacionam em maior medida que os não leitores”.
 
De repente, você vê alguém lendo um livro que lhe desperta a atenção, um amigo ou familiar comenta a respeito de uma obra que ele leu e você logo se interessa em também ler o mesmo livro. Em tempos digitais, quem sabe ainda você lê o fragmento de uma narrativa nas redes sociais e aquelas palavras ecoam em seus pensamentos e te motivam a ler a obra completa. Você vai até uma biblioteca ou a uma livraria e resolve descobrir o que tem por detrás da capa de um livro que lhe impressionou. Seja ficção, filosofia, conteúdos religiosos, científicos ou esotéricos, seja por gosto ou por aprimoramento pessoal, são variados os motivos que levam um leitor a se aventurar nas páginas de um livro. Desde os tempos dos manuscritos aos tempos eletrônicos vigora as possibilidades de trocar experiências e compartilhar pensamentos a partir da escrita. Em cada livro o convite para embarcar em uma viagem que vale a pena.
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