18/04/2019 às 08h17min - Atualizada em 18/04/2019 às 08h17min

O professor

IVONE GOMES DE ASSIS
“O professor disserta sobre ponto difícil do programa. Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida. O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. O professor baixa a voz, com medo de acordá-lo”, este clássico poema de Carlos Drummond de Andrade nos apresenta toda a tolerância e sabedoria que há em um professor.

O professor sempre ocupou (e ocupará) um lugar de destaque na história, pois é ele quem, desde os primeiros anos, segura na mão do aluno e lhe ensina a enxergar o mundo por meio da palavra escrita. Mais tarde, o professor vai lidar com os conflitos dos adolescentes, com o cansaço do aluno que trabalha o dia inteiro e mal consegue se manter de olhos abertos... E assim a lista de alunos segue, cada qual com suas necessidades. Mas o professor estará sempre lá, disposto a ensinar, a contribuir, a formar o aluno.

Mas, quem está se preocupando com o professor? Acaso é ele máquina? Parafraseando Charles Chaplin, podemos dizer: Não sois máquinas! “Professor” é que sois! Neste ano, foram vários os artigos e as matérias publicadas em torno do professor, informando o assombroso número de afastamento destes mestres, por problemas mentais.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 24/07/2019, também apresenta uma nota sob a temática “Saúde mental lidera causa de licença médica”. Os problemas vão desde os posturais, passando por problemas na coluna, até chegar ao estresse e à depressão. O acúmulo desencadeador do problema está, sem dúvida, relacionado às sobrecargas: dobras, problemas com o comportamento dos alunos, e outros. Há que se mencionar também a exigência de produção literária, para pontuar na grade de progressão.

No pacote das causas geradoras de afastamentos encontram-se os gatilhos que levam à depressão; à ansiedade, à síndrome de burnout (síndrome de esgotamento profissional), distúrbio psíquico que se dá pelo estresse perseverante; à síndrome do pânico; ao transtorno bipolar, e outros. O número de afastamentos de professores, por transtornos mentais ou comportamentais, aumentou significativamente nos últimos 5 anos.

Cecília Meireles escreveu em “Qualidades do professor”: “Se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor. / Destinado a pôr-se em contato com a infância e a adolescência, nas suas mais várias e incoerentes modalidades, tendo de compreender as inquietações da criança e do jovem, para bem os orientar e satisfazer sua vida, deve ser também um contínuo aperfeiçoamento, uma concentração permanente de energias que sirvam de base e assegurem a sua possibilidade [...], chegar a apreender cada fenômeno circunstante, conciliando todos os desacordos aparentes, todas as variações humanas nessa visão total indispensável aos educadores. / [...] Ser ao mesmo tempo um resultado — como todos somos — da época, do meio, da família, com características próprias, enérgicas, pessoais, e poder ser o que é cada aluno, descer à sua alma, feita de mil complexidades, também, para se poder pôr em contato com ela, e estimular-lhe o poder vital e a capacidade de evolução. / E ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento. / E ter imaginação para sugerir. / E ter conhecimentos para enriquecer os caminhos transitados. / [...] Quantas vezes, entre esse ideal e o professor, se abrem enormes precipícios, de onde se originam os mais tristes desenganos e as dúvidas mais dolorosas!

De repente, o que encontramos são professores adoecidos, não somente pelo esforço de trabalho, mas também pelo medo, pela decepção com os alunos, que, insanamente, migraram das agressões com palavras e gestos, para as agressões físicas contra aquele que está ali, simplesmente, para lhes oferecer conhecimento. Há um erro na programação comportamental da juventude contemporânea.
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