09/04/2019 às 09h26min - Atualizada em 09/04/2019 às 09h26min

Corpo não se cala

ENZO BANZO
Wagner Schwartz carrega uma ferida no rosto. O conheço desde muito antes do ferimento, que ainda lateja não só nele, mas em todos que acreditamos na arte, em seu poder revelador, libertador, humanizador. Para sentir esta ferida, não é preciso conhecer Wagner, que cumpre a dura missão de personificar uma cicatriz de seu país, advinda de forças repressoras, castradoras, desumanizantes.
 
Wagner acaba de estrear seu primeiro espetáculo solo após o corte que divide sua vida. E nos mostra que não deixou de ser Wagner, ou que talvez seja ainda mais ele mesmo. Seu novo trabalho, "A boba", é uma performance em que contracena com uma reprodução do quadro homônimo de Anita Malfatti, mulher de vanguarda que no início do século XX deflagrou o marco inaugural do nosso Modernismo (o movimento renovador de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Heitor Villa-Lobos), que até hoje repercute como virada de chave no modo de se produzir arte no Brasil.
 
No bate-papo após sua apresentação no Teatro Cacilda Becker, em São Paulo, Wagner nos conta que Anita sofreu duras perseguições em seu tempo, desde o conhecido texto de reprovação de Monteiro Lobato, até falas, cartas e mesmo bilhetes deixados junto a suas telas (a internet talvez seja somente o meio que propaga uma força nefasta que sempre existiu). E veio daí o desejo de juntar-se a Anita, à boba de Anita, a ela se fundindo em cumplicidade, constituindo um amálgama das tensões contraditórias da nossa civilização pindorama.
 
Nada disso está, de forma explícita, no espetáculo. "A boba" foi o desafio de recuperar a própria linguagem, de reconquista de si mesmo. E, a despeito da ferida, ou talvez por seu efeito, Wagner alcança, neste espetáculo, um ponto de radicalização de seus próprios recursos. Porque a arte de Wagner, um artista do texto, é a articulação de uma poesia sem palavras, numa espécie de silêncio lírico. "A boba" é a concretização extrema deste fenômeno. E esta conclusão é decorrente de um olhar sobre toda sua trajetória.
 
Lembro-me das primeiras vezes que ouvi falar neste artista que viria a ser meu amigo, e que havia cursado Letras na UFU antes de mim. Ali deve ter aprendido e refletido sobre os caminhos do texto até a sua total dissolução (e nisso tivemos um mestre em comum, o saudoso professor Aldo Colesanti, por quem Wagner confessava uma mescla de admiração e temor). Lembro-me dos primeiros espetáculos que assisti, dos quais a memória me reserva, além de alguns flashes, a trilha sonora: Björk, Marlui Miranda, Caetano Veloso; de como o gesto performático e musical de Wagner ganhava novos rostos e movimentos no início dos anos 2000, com o grupo Maria do Silêncio, do qual emergiram tantos artistas que seguiram na dança e em outras artes. Percebo, rememorando seu percurso, a síntese poética contida na condensação dos mínimos títulos de seus espetáculos: "Transobjeto", "Placebo", "La bête", "Piranha", "A boba". Síntese que contrasta com o expandido título de seu primeiro livro, aqui sim operando na órbita material do texto: "Nunca juntos, mas ao mesmo tempo".
 
Até as versões de "Transobjeto", minha leitura apegada à discursividade verbal amparava-se nas canções das trilhas para mergulhar naquele universo. Mas, na sequência de seu trabalho, Wagner abandonou o campo da trilha cancional, passou pela concretude dos sons eletrônicos de "Piranha", até chegar no absoluto silêncio da Boba, que também poderia se chamar Maria, a do Silêncio. Como bem observou o meu comparsa Danislau, ao meu lado vendo Wagner mais uma vez, o recurso da saturação chegou aqui em seu ponto máximo. Silêncio do texto, do som, da luz, do cenário. Não há onde se escorar. Não há como parar em pé. Não há como fugir da boba.

Exauridos diante de tanta ausência (e não por acaso o espetáculo caminha para um sentido de exaustão), o que nos resta é o movimento, fruto de um texto lapidado até que deixe de existir. Ausência que se converte em presença expressiva do corpo. O corpo de cada um, o corpo-ficção da tela, o corpo-representação do palco, o corpo-dança, o corpo de Wagner. Este mesmo corpo que foi agredido de forma brutal por explicitar sua materialidade nua e poética. Como canta Tom Zé: "corpo não é pecado, corpo não é proibido, corpo não é mentira". E o corpo não se cala.
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