04/04/2019 às 08h21min - Atualizada em 04/04/2019 às 08h21min

Banquete de leituras

IVONE GOMES DE ASSIS
O querer vem do encantamento. Muito se fala em gostar ou desgostar disso ou daquilo. Daí surgem centenas de teorias e práticas. Todavia não é segredo que a arte do gostar reside nos detalhes. Vejamos o exemplo da leitura. Quantos não são aqueles que dizem não gostar de ler? Há até quem se desculpe alegando não ter tempo, ou não gostar do assunto sobre o qual se tem a obra no momento. O fato é que ler, embora seja uma atividade expressamente prazerosa, não é algo fácil. Mais que disciplina, a leitura requer desejo. E essa vontade se inicia pelo espaço que acomoda o livro, seja a biblioteca, a livraria, a escola, a casa... ou outro lugar. As divisões devem ser esteticamente funcionais, o cenário pede atratividade... É uma espécie de decoração funcional. Não basta a acessibilidade e não basta a decoração, as duas são inseparáveis. Não se trata de luxo, mas sim, de bom gosto e bom senso. E mais que tudo isso é o livro em si: a temática, a escrita, a ilustração, o projeto gráfico, o acabamento... Enfim, o livro e a escrita. Quando se tem uma boa oferta, a criatividade floresce.

Nesta semana, li “Margarita, a Ostra” (2018), de Blenda Bortolini. História e ilustrações se harmonizam. A autora narra a vivência da ostrinha Margarita, nascida nas águas do pacífico, no Taiti. Narra a beleza dos recifes. Descreve as cores, a vizinhança, as famílias de cardumes, a ornamentação dos corais, a magnitude das rochas, no fundo do mar, o verde... E, assim, a autora segue hipnotizando o leitor, com sua literatura. Ensina que peixe-palhaço não é gente; que o tubarão-tigre não é felino; e narra a razão de ser da tão cobiçada pérola, ensinando que sua existência é uma arma de defesa, ou seja, trata-se da reação natural do molusco (ostra) em prol de se resguardar contra certos parasitas. Quando o invasor perfura a concha, para ali se alojar, provoca um sofrimento enorme na ostra e, esta, para se defender, “chora”. Então, suas lágrimas, ricas em calcário, enfraquecem o inimigo.

Na história de Blenda Bortolini, a ostrinha Margarita “deu o nome a esse segredo de Nácar. Percebeu que, quando usava o Nácar, ele [o intruso] ficava fraco”. Assim, enquanto “curava a sua ferida”, fortalecia-se e destruía o seu inimigo. “O intruso provocava as suas lágrimas e o segredo que tinha nas lágrimas o prendeu. Ele foi preso pela sua própria maldade. O tempo passou e a sua ferida foi curada totalmente. O segredo do Nácar produziu algo precioso dentro dela e a sua força não o deixava fazer mais maldades”.

Contudo, não basta a boa história e o layout, a interpretação textual é outro elemento que cativa ou expulsa o leitor, daí a importância de professores, palestrantes, colunistas, contadores de histórias, pais e outros, estarem comprometidos com o conteúdo e a forma de se repassar.

Sabemos que as estratégias cognitivas (inconsciente) e metacognitivas (consciente) abrem ou fecham as possibilidades de leituras, por isso é tão importante agir com sabedoria. Ou seja, se o texto alcança as expectativas do leitor, propicia ali uma compreensão, desencadeando ações cognitivas, que serão essenciais ao querer do leitor; no entanto, se não houver este “amor à primeira vista”, o consciente afasta o leitor da leitura. Por isso, a elaboração de livros e espaços é tão importante, do contrário, estaremos empurrando os leitores para outros atrativos, como jogos, filmes etc...

Podemos comparar a leitura às refeições ofertadas. Quando nos deparamos com as refeições servidas em uma mesa harmonicamente decorada, com a presença de pessoas felizes, cada detalhe parece aumentar o apetite. A leitura segue pelo mesmo veio, carecemos de um banquete de leituras, porque, nesta vida, o querer vem do encantamento.
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