28/03/2019 às 09h45min - Atualizada em 28/03/2019 às 09h45min

Trincas e fissuras

IVONE GOMES DE ASSIS
“Árvore e menino dobrados, na chuva. São mil coisas impressentidas que me escutam: O movimento das folhas, o silêncio de onde acabas de voltar e a luz que divide o corpo da nascente [...] São os pássaros assustados, assustados, tuas mãos que descobrem o convite da terra e os poemas como ilhas submersas… [...] Provavelmente sobre as frondes viriam os pássaros cantar, levando-me até os caminhos indecisos da aurora. Entretanto havia uma pergunta que me desafiava e um desejo obscuro nas mãos de apanhar objetos largados na tarde… Fui andando… Meus passos não eram para chegar, porque não havia chegada, nem desejos de ficar parado no meio do caminho. Fui andando… As coisas eram simples. Nem gaivotas no mar imperturbável, mas havia uma pergunta que me desafiava [...]” (Manoel de Barros, 2010, p. 49-50).

Nesta semana, enquanto eu lia “Fragmentos de canções e poemas” de Manoel de Barros, fiquei pensando nas centenas de moradores que já foram expulsos de suas casas, por ameaça de rompimento de barragens como Barragem Serra Azul, que abocanha Itatiaiuçu e entorno; Mina Gongo Soco, que engole toda a Socorro de Barão de Cocais e outras vizinhas. As cidades de Nova Lima, Rio Acima, Raposos, Itabirito... são cutucadas pelas ameaças de Mina Engenho, Complexo Minerário de Fernandinho, barragem Maravilhas...

Enfim, para não estender o texto, vamos lembrar que somente a região metropolitana de Belo Horizonte se encontra circundada por 26 barragens de mineração, todas em situação de alerta.

Como deitar em paz, se o alerta do despertador para o trabalho foi substituído pelo som da sirene de evacuação? As rotas de melhorias foram trocadas por rotas de fugas. A morte espreita, aprisionando o psicológico desta gente.

E, como se não bastasse o mal causado à saúde, pelos elementos químicos armazenados na localidade, pessoas moram a vida inteira em um torrão natal, vem o “progresso”, explora o minério, e quando este chão não lhe serve mais, a única herança que se deixa são os rasgos e frinchas na terra e nas pessoas.

Em relação a esta pendência, nesta semana, ouvi um administrador dizer, sobre os desalojados, que agora, vivem em moradias provisórias, que eles estão recebendo todos os direitos (alimentação, transporte...) que tinham antes. Nem sei o que responder a isso. Aquelas pessoas tiveram sua história arrancada de si. Porque, bem sabemos, casas têm memórias. O lugar onde vivemos registra, em nossas lembranças, desde o canto do passarinho, passando pelo barulho da rua, a conversa do vizinho, o cheiro das plantas, até o nosso próprio movimento de um canto a outro. Os mais velhos contam suas histórias e apontam os lugares, para identificar melhor. Os mais novos escutam, com curiosidade e, geralmente, vão visitar os locais mencionados. Isso é história. É vida.

Agora, vêm rachaduras e fendas, rasgando chão e sonhos, ao mesmo tempo em que alinhava, com o medo e a incerteza, tais rupturas. Trocam o registro das origens, as conquistas de uma vida inteira, por casas provisórias/alugadas e um prato de comida. As 317 barragens de mineração que “habitam” em Minas Gerais fizeram um campo minado do estado.

Sobre o uso dos recursos renováveis, na obra “Sabedoria incomum: conversas com pessoas notáveis” (1995, p. 171), Fritjof Capra em conferência com E. F. Schumacher falam sobre “Futuros alternativos”: “‘Ecologia deveria ser matéria obrigatória para todos os economistas’, insiste Schumacher, observando que, ao contrário de todos os sistemas naturais — que se equilibram, ajustam e purificam por si —, nosso pensamento econômico e tecnológico não admite nenhum princípio de autolimitação. ‘No sistema delicado da natureza’, conclui, ‘a tecnologia, e em particular a supertecnologia do mundo moderno, age como um corpo estranho, e hoje já podemos observar numerosos sinais de rejeição’”.

O uso desenfreado das coisas só é capaz de gerar, quando pouco, trincas e fissuras.
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