26/03/2019 às 08h54min - Atualizada em 26/03/2019 às 08h54min

Pequena canção que você não escutará

ENZO BANZO
A canção como a compreendemos de um século pra cá é artefato necessariamente tecnológico. Não dá para pensá-la sem a associarmos ao surgimento da indústria fonográfica nas primeiras décadas do século XX. Desde então pode ser gravada, grafada em mídia sonora, possibilitando a cada canto expandir-se a qualquer canto em suas ondas, ao mesmo tempo em que guardamos em nossas estantes físicas ou virtuais os acervos que nos aprazem, como livros em uma biblioteca. Antes da indústria, as canções eram registradas nas memórias das gerações ou nas anotações das partituras, valiosos códigos que, diferente do que existe após o rádio e o disco, não carregam em si o próprio som.
 
Vira o século, e tudo agora é digital, fácil e acessível (assim parece). Dá para se criar um disco com pouquíssimos recursos, em casa, com programas e apetrechos digitais que substituem a parafernália dos grandes estúdios. A internet está aí, é só subir a música lá. Tudo está ao alcance de qualquer mão. E tudo, não nos esqueçamos, é muita coisa. O fato é que ficou fácil fazer um disco em meio a tanta tecnologia. O fato é que anda difícil criar e lançar um disco em meio a tantas vozes e informações.
 
Um caso exemplar é "Erê", EP de inéditas lançado virtualmente pelo duo Kainã Bragiola e Matheus Neves no início deste mês de março, apresentando seis faixas e duas vinhetas (EP era o nome daquele disco de tamanho médio, menor que um LP, maior que um compacto). Kainã e Matheus são compositores, e se juntaram pra gravar um disco. Bragiola e Neves não contam com o aparato de uma gravadora. K & M se enfurnaram em um quarto de casa e produziram seu álbum, materializando a linguagem estética que neles pulsava com os recursos que tinham em mãos.
 
"Erê" nasceu em vozes e instrumentos acústicos e elétricos, passou pelos programas digitais instaláveis em qualquer computador, e chegou ao mundo pelas portas virtuais do YouTube e do Spotify. Sem campanha publicitária, sem distribuição em rádios e lojas, contando apenas com as forças dos próprios artistas, transformados agora em vendedores dos peixes que pescam no mar de si mesmos.
 
O que nos diz este "Erê" de Kainã e Matheus? A audição da primeira faixa, "Pessoas" (composição do segundo com arranjo do primeiro), nos conduz a uma espécie de brisa, um ambiente outro, espaço onírico que nos retira deste mundo de excessos de vozes e luzes. Instrumentação minimalista, duetos vocais entre uma cadência de baixo e percussão, sem maiores anteparos harmônicos ou rítmicos, um tudo-pouco formador de um grande-uno.
 
A primeira estrofe assume um tom pessimista: "estrada amarga", "cansei de sobrevoar", "a roda cessa", textos desenhados em curvas melódicas tensas em tom menor. O mundo amargo em que vivemos. Entretanto, o segundo bloco de versos passa à tonalidade relativa maior, assumindo um movimento melódico mais leve, explicitado na própria letra, remetendo-nos às entoações saborosas das “jazz songs”. O mundo é amargo, mas a arte ainda pode ser caminho para a leveza.
 
"Minha pequena canção que você não escutará", assim se encerra a letra da peça, enquanto o sujeito cancional sobrevoa leve "as pessoas sempre vivas no Havaí e também por aqui ou até mesmo em Buriti Alegre". O canto assume o paradoxo: não abre mão do próprio voo e da própria existência, mesmo com o amargor da estrada, mesmo que não seja ouvido. Ao mesmo tempo, quer ser ouvido (posto que canta), o que é condição para existir. O compositor é convertido em um ouroboros voador.
Segue a audição, e "Êre" vai se inscrevendo numa nossa tradição de canções para respirar fundo e rever o mundo, linha lírica que talvez tenha em Milton Nascimento sua figura maior. Este artesanato sonoro vindo das entranhas do bairro Santa Mônica, graças às possibilidades das tecnologias acessíveis de gravação e difusão, parece na contramão do nosso tempo, embora só exista em função do que o tempo de agora propicia.
 
Na faixa "Libertas" (composição de Matheus e arranjo da dupla), soa o violão em movimento conjunto à tessitura melódica vocal (recurso caro a Kainã), em meio a sons de chuva e trovões. No verso final, o sentido de voo em contramão é declarado: " libertas meu bem / de toda essa lama insana e essa gente que pensa que grana é mais".
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