07/03/2019 às 08h45min - Atualizada em 07/03/2019 às 08h45min

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IVONE GOMES DE ASSIS
O planeta água é a nossa casa. As ruas são os corredores, e não os mictórios. Oceanos e rios são os reservatórios de águas, e não a lixeira. Na terra habitam homens, pássaros, animais e plantas, nas águas residem peixes, corais... a ninguém é permitido jogar seu lixo na casa do outro. No entanto, embora os habitantes marinhos e uma boa parte dos terrestres cumpram seu dever, a categoria gente teima em descumprir seu dever, entupindo rios, ruas, ralos... com o lixo que produz. Esse desrespeito assoreia a terra, engole árvores e estradas, modifica a natureza.

Devemos repensar nossas atitudes, respeitar o planeta e seus demais habitantes. Sejamos responsáveis o suficiente para não agredir a nossa própria vida, nem a do outro. O México passou a desenvolver talheres biodegradáveis, a partir do caroço de abacate. Enquanto um objeto plástico pode levar até 500 anos para se decompor, os talheres de caroço de abacate, ao serem enterrados, gastam 240 dias para serem consumidos pelo solo.

Danielle Mitterrand, um mês antes de sua morte, por ocasião da inauguração da primeira unidade de reciclagem de plástico da Asmare, em Belo Horizonte, proferiu: “[...] a natureza se vinga das nossas políticas neoliberais irresponsáveis. Os resíduos sólidos são consequência do consumismo. Os catadores, com a nobreza de nada destruir e sim adaptar, mostram para o mundo que é possível governá-lo de outra maneira, com respeito e gratidão à vida” (Minuano e Gonçalves, Revista Fórum, 2011).

Infelizmente, o respeito e a gratidão à vida que habita nos catadores, inexiste na maior parte da sociedade. As arquibancadas, as praias e as ruas empesteadas de lixo após um evento qualquer – Carnaval, shows, futebol... –, são provas dessa ausência de consciência.

Como se buscasse reforçar a declaração de Mitterrand, amparo-me na poesia “Cuide bem da natureza”, do pernambucano Gleidson Melo, que diz: “[...] A chuva fina chegava de mansinho. / O encanto e o aroma matinal traziam um ar de reflexão. / Enquanto isso, o meio ambiente pedia socorro. / Era o homem construindo e destruindo a sua casa. / Poluição, fome e desperdício deixam o mundo frágil e degradado. / Dias mais quentes aquecem o “planeta água”. / [...] Reflita e preserve para uma consciência coletiva. [...]”.

Bem sabemos que, para um bom resultado, toda ação demanda técnica, e esta, por sua vez, fundamenta-se na intencionalidade. Por isso, a eficiência da ação está pautada no comportamento humano social e governamental. E este, por sua vez, não se ajusta de primeira impressão, nem mesmo se completa em um só governo. É um processo, e como tal, é demorado, devido às pontas que demandam aparas. Mas precisamos nos esforçar em prol da conquista.

Aristóteles, na obra “Ética a Nicômaco”, à página 56, ensina: “A vida parece ser comum até às próprias plantas, mas agora estamos procurando o que é peculiar ao homem”, então, excluindo o que é próprio do viver, e com foco apenas no racional, o filósofo disse: “[...] é preciso ajuntar ‘numa vida completa’. Porquanto uma andorinha não faz verão, nem um dia tampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço de tempo, não faz um homem feliz e venturoso. [...] é necessário esboçá-lo primeiro de maneira tosca, para mais tarde precisar os detalhes. Mas, a bem dizer, qualquer um é capaz de preencher e articular o que em princípio foi bem delineado; e também o tempo parece ser um bom descobridor e colaborador nessa espécie de trabalho. A tal fato se devem os progressos das artes, pois qualquer um pode acrescentar o que falta”. Por isso devemos ser adequados ao inquérito, pois cada caso é um caso, portanto, faça, cada qual, sua parte com zelo e precisão, para que o todo seja alcançado. Assim, se cada um cuidar de seu próprio lixo, não haverá acúmulos.

Todos são da espécie humana, mas a ação de cada um determinará sua peculiaridade. E juntas as andorinhas farão o verão, porque o pequeno se converte em gigante. A diferença dos (quase) iguais está nos detalhes.
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