11/01/2019 às 08h22min - Atualizada em 11/01/2019 às 08h22min

Lições de vida de uma velha árvore

CELSO MACHADO
Ali onde funcionou por mais de 20 anos nossa produtora de vídeo, na rua Tenente Virmondes quase esquina com a rua Eduardo de Oliveira, no Centro de Uberlândia, tem uma velha árvore. Ela é da espécie sibipiruna e provavelmente foi plantada há mais de 80 anos pela família Oliveira. Quando isso aconteceu a rua não era pavimentada e, portanto, não tinha calçada.

O passar dos anos transformou bastante o local. A rua ganhou asfalto e suas raízes invadiram o passeio que foi cimentado, o que gerou sérios problemas de acessibilidade. Não bastasse isso, certamente a impermeabilização do solo e a idade, que também chega para as árvores, tornaram seus galhos secos e quebradiços. Com frequência aconteciam acidentes, especialmente com os veículos estacionados sob sua agradável sombra.

Depois de anos dessas ocorrências foi autorizado o corte da sibipiruna, que a princípio seria total, mas acabou sendo parcial pela sensibilidade exagerada de quem foi executar o serviço. A velha árvore frondosa perdeu seus galhos e virou apenas um tronco com três galhos sem folhas. Durante esta semana voltei a vê-la. Fiquei sensibilizado. Ainda que sem sua antiga exuberância lá estava ela - velha e apenas com seus galhos principais - toda florida. Lutando para viver, renascendo mesmo toda podada e cortada.

Fiquei pensando na lição que a natureza nos passa. De como a vida é um bem precioso do qual não devemos nunca abrir mão: mesmo sofrendo os duros golpes da motoserra a velha sibipiruna não desistiu de lutar para continuar existindo. Por quanto tempo, mais um ano, talvez um pouco mais, não é possível precisar. Não interessa, ela quer continuar viva enquanto existir chance de vida dentro dela.

Como ela, convivo com pessoas queridas enfrentando doenças terríveis que muitas vezes não tem cura e quando têm voltam tempos depois. Essas pessoas se apegam a tudo que possa lhes dar continuidade no existir: tratamentos complexos e dolorosos, orientações de todo tipo e fé, sempre muita com determinação.
Guerreiros anônimos lutando a batalha contra o inimigo oculto que chega sem sabermos de onde e porquê.

Mesmo fragilizados nunca desistem, fortes em suas buscas, tentativas, pelejas. Nem quando o que tinha ido, voltou. Se para nós é dolorido receber notícias assim, é impossível imaginar o que eles estão sentindo ou pelo que estão passando. Eles não esperam as chances, inertes e quietos, pelo contrário: eles as criam onde quer que possam existir. Vão em busca da continuidade da vida além até do limite onde ela possa existir.

Nós que os amamos ficamos torcendo que renasçam neles as folhas de continuidade de suas existências tão preciosas. E paramos para avaliar nossas vidas sobre outra ótica. Refletindo sobre atitudes e comportamentos que nada acrescentam. A dar mais valor para as coisas mais relevantes como o que eles tanto lutam para ter e que sem sabermos porque, generosamente recebemos de sobra. E deixar de desperdiçar tempo com coisas banais.

Até mesmo prestar mais atenção nos recados que as árvores que encontramos em nossos caminhos tentam nos passar.
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