08/01/2019 às 09h02min - Atualizada em 08/01/2019 às 09h02min

Donana fala de sua família

ANTÔNIO PEREIRA
Trecho de entrevista com dona Ana Gonçalves Tomazelli.

“Meu avô era Francisco Gonçalves de Andrade. Veio do município de São João del Rey com 21 anos para a Aldeia de Santana. Lá se casou com a filha de uma índia chamada Ana Faustina dos Santos. Lá nasceram os dois primeiros filhos dele, tia Maria e tio Pio. Depois se mudou para Uberabinha e foi morar na fazenda onde é o Patronato do Buriti. Ali era a sede. Ele tinha doze filhos. Dois vieram de lá, os outros nasceram aqui no Patronato. José Gonçalves, João, Joaquim Pio e Mauro Gonçalves, Maria, Raquel, Amélia, Alina, Daura e Madalena. Antes do vovô morrer, ele fez doação das terras para os filhos. A fazenda dele começava lá perto do rio das Velhas e vinha até aqui onde é a Medicina. Eram 40 alqueires. Deixou todos os filhos alojados. Ele morreu no dia 22 de abril de 1922. Eu era menina. Me lembro do meu avô quando ele chegava da lida dele. Lá tinha engenho, fábrica de pinga, de açúcar, de rapadura, farinha, fubá. Ele andava descalço. Todos andavam descalços. Tinham uma alparcata feita de couro de vaca para calçar quando chegavam do serviço para não sujar a cama quando fossem dormir. Chegavam, tomavam banho, calçavam as alparcatas. Ele tinha uma rabeca, punha um tamborete na janela e ficava tocando na rabequinha.

A tia Daura tocava sanfona, o tio Joaquim tocava cavaquinho, o tio Luiz tocava violão e eles tinham um gramofone. O papai tocava violão. A minha avó acabava a lida dela, sentava perto do gramofone e dizia para o Zeca: ‘ô, Zeca, põe a Marselhesa pra tocar pra mim’. Ele tinha uma porção de chapas (era como chamavam os discos). Quando o papai nasceu, a filha mais velha do vovô tinha 22 anos. A Tia Maria. O tio Pio estava carreando cana e o carro passou em cima do dedinho dele e cortou. Aí, o vovô mandou um empregado na cidade buscar um médico. Foi a cavalo puxando outro para trazer o médico. E ele passou a noite fazendo curativo. Foi na noite em que o papai nasceu. Depois que o médico foi embora a vovó falou para ele assim: ‘ô, Chico, como é que se chama o médico que atendeu o Pio?’ Chama Romualdo. Ela disse: ‘então o menino vai se chamar Romualdo também’. O tio Zeca cortou a mão no engenho. A mão direita. Ficou inutilizado. O vovô falou pra ele: ‘vou comprar um livro de medicina procê estudar medicina, você vai ser médico também’. Foi. Era charlatão. Meu avô foi o parteiro de todos os filhos dele. Nos dias da vovó dar à luz, ele pegava uma vasilha, enchia de pinga, porque não tinha álcool naquele tempo, punha uns cordões ali dentro e uma tesoura pra cortar o umbigo do menino quando nascesse.

Ele tinha um casal de escravos. A escrava ajudava a minha avó na lida da casa. Um dia, ele tinha uma égua de estimação, o escravo dele pegou a égua e uma cobra picou a égua e ela morreu. Ele ficou numa paixão muito grande por causa disso. Amontoou lá dentro, na cama dele, e não queria sair. Ficava lá. Minha avó pelejava com ele para ir almoçar e ele não queria. Sofrendo a perda da égua. Aí minha avó falou assim: ‘você vai ver o Silvestre hoje no almoço’. Matou um frango. Fez frango com quiabo e angu e levou lá para ele, aí ele comeu. Aí ele saiu de lá com o prato vazio e falou assim com ela: ‘Sinhá Donana, frango com quiabo e angu cura até paixão por égua’.”
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