03/01/2019 às 09h41min - Atualizada em 03/01/2019 às 09h41min

Felicidade não tem idade

IVONE GOMES DE ASSIS
Dia após dia, a vida urbana aglutina o fado que pesa nos olhos daquele que, não encontrando o caminho, derrama-se em prantos. Não, não é este pranto chorado e ouvido. É um pranto silencioso, que se verte para dentro, molhando não a face, mas o pensamento. Pessoas se perdem em sua dor, que, de tão única, chega a ser incompreensível. Confiança e desconfiança escorrem, lado a lado, nos dois lados da calçada. Olhos olham espichados. Línguas loucas proferem palavras cortantes, e a fera ferida defende-se. Não se perguntam “Por que”? Contudo argumentam “porque isso e aquilo...”. Qual o porquê disso?! Possivelmente, porque as pessoas – de preocupadas que andam em ter títulos, status, pertences... – estão desaprendendo a viver.

José Paulo Paes, em seu poema “Pescaria”, escreve: “Um homem / que se preocupava demais / com coisas sem importância / acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas. / Um amigo lhe deu então a ideia / de usar as minhocas / numa pescaria para se distrair das preocupações. // O homem se distraiu tanto / pescando / que sua cabeça ficou leve / como um balão / [...] Onde será que foi parar? / Não sei [...]. / Vou mais é pescar”.

Manoel de Barros, em 1999, escreveu: “Pantaneiro aprendeu com a natureza / Ele sabe que o ermo tem cantos / E que o silêncio tem cílios / Ele já foi arborizado pelos pássaros”. Pensando na lisura do poema de Paes e na grandeza da poética de Manoel de Barros, ponho-me a relembrar de um fantástico episódio que vivi na semana passada, por ocasião de uma pescaria com meu avô, no auge de seu um século de vida. Não foi uma pescaria urbana, de Pesque e Pague, mas, sim, uma pescaria caipira. O centenário deu um show, no sobe e desce do barranco molhado, medindo cerca de 10 metros de altura. O velho assemelhava-se a uma piaba, rápido, livre e feliz. Os causos brotavam em sua memória. Parecia um menino, com o embornal cheio de pedras e estilingue no pescoço, correndo pelo pasto. O espetar minhocas no anzol e o arremesso nas águas, puxando com ligeireza, para o peixe não escapulir, trazia-lhe a vida, reformulada. A noite chegou e o pantaneiro com o facão na bainha, o chapéu na cabeça, alguns peixinhos espetados na vareta, fincou os pés no barranco, de volta para o rancho, na companhia da macacada, que saltitava de galho em galho, como se observassem nosso movimento. Aos poucos, o canto da passarada foi sendo substituído pelo coaxar dos sapos, o cricrilar dos grilos e o “canto” da perereca, chamando a chuva. Não demorou muito, a chuva ouviu e veio. Chegou pesada. Caiu com gosto. Quando passou, a lua custou a encorajar-se para aparecer, mas os pirilampos compadeceram-se de nós, e iluminaram a mata, a varanda, o teto...

Como escreveu Edson Amorim: “Pescar nos rios pantaneiros / É prazer que cala na alma / Enquanto se joga o anzol / E espera o peixe fisgar com calma / [...] E aflitas ansiedades, acalma! // O passarinho vem fazer companhia / Cantando na árvore vizinha / O macaquinho pula de galho em galho / Fazendo sua especial gracinha / E o bote vai deslizando na água / Arrastando, pelo fundo, a linha! // Pescando no solitário barranco / [...] O desejo do alegre pescador / É de um fisgar um grande Dourado / E vê-lo saltar no meio do rio [...]”.

Enquanto o sono era aguardado, os causos vinham fazer a alegria da família reunida. Devagar, um a um, caímos, todos, nos braços de Morfeu. Os sonhos nos apresentavam as águas chicoteadas pelos anzóis, ao mesmo tempo em que as estrelas iam ponteando o céu. Em breve o sol abriria o caminho para os pescadores romperem a aurora, rumo à cidade.

Outra vez, a vida urbana tomará conta de todos e o silêncio continuará abrindo novas clareiras no cotidiano de muito, mas o pescador, ah, este, como diria Cecília Meireles, sempre terá “Cesto de peixes no chão / Cheio de peixes, o mar. / Cheiro de peixe pelo ar. / E peixes no chão [...]”, entre os porquês que seguem dia após dia.
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