05/03/2018 às 14h53min - Atualizada em 05/03/2018 às 14h53min

Paranormal

WILLIAM H STUTZ | COLUNISTA

Chegou em casa esgotado, dia estafante de pouco fazer, mas a cabeça não parava. Como sempre abriu as janelas para que o doce ar da tarde empurrasse o cheiro de casa fechada. Cheiros de madeira dos poucos móveis, do incenso queimado na noite anterior. Sonhos e lembranças ainda presos fugiam com a brisa leve e tomavam rumos desconhecidos. Jogou-se preguiço em sofá pequenino. Só então se deu conta dos latidos chorosos vindos do quintal e do arranhar de porta. Tão detonado estava que não prestou atenção que seu companheiro cão o aguardava ansioso. Já sem a botina, só de meia, correu para abrir a porta da cozinha. Festa assim, de poucos ou de ninguém recebia. O vira-lata puro, de nome Pistache, ficava eufórico toda vez, por menor que fosse a sua ausência. Ao voltar era sempre recebido como um deus.

Pistache entrou feito um foguete casa adentro, subia e descia as escadas que levavam ao quarto como um louco. Latia, quase falava pedindo carinho e atenção. Aquela bagunça durava alguns longos minutos e só parava depois de muito afago e coçar de barriga.

Companheiro aquietado, segue-se a rotina solitária. Abre a geladeira sem procurar nada, só costume. Confere a marmita do almoço e vê que vai dar para a janta tranquilamente, pois sobrou muito.

O tempo se fechava para chuva. Resolveu ficar quieto em casa. Subiu de dois em dois os degraus rumo ao banheiro.

Já no chuveiro, pensou ouvir vozes no andar de baixo. Fechou a torneira e pôs atenção. Nada, imaginação apenas.

Retornou ao revigorante banho cantarolando. Poucos segundos, vozes novamente.

Tem alguma coisa errada, se fosse gente estranha Pistache daria sinal. O vira-lata dava notícias de tudo, mas o bicho estava quieto...

Enxugou rapidinho e de pulo vestiu uma bermuda larga e confortável.

Nesse meio tempo escurecera. As sombras delicadas da noite tomavam conta de toda a casa. Luz agora só no quarto onde se vestia.

Ao apagar o único brilho, percebeu um clarão a piscar embaixo. A luz fazia movimentos e se espalhava por toda sala. Que estranho. Nada de tenebroso lhe passou pela cabeça, tipo fenômeno sobrenatural, um poltergeist da vida. Nada do tipo, mas que era estranho era.

Desceu com mais cuidado do que de costume e, por precaução, não acendeu luz alguma.

Qual foi sua surpresa. Ao entrar na sala, a televisão estava ligada e Pistache super atento a olhar a luz de um canal sem sinal. Pronto, agora só me falta sair alguém daí de dentro e arrastar o cão. Sorriu. Bateu a mão sobre a cama que lhe servia de sofá a procurar o controle remoto, mas foi só virar as costas e entrou na tela um programa de televisão, desses de pregação e tira-capeta, com o som nas alturas! Tomou um susto louco. O coração veio à boca. Olhou Pistache e este continuava a olhar firme para a tela, desconfiado.

Mas cadê esse danado de controle que não acho? Aí sim acendeu luzes, revirou tudo, quando novamente o canal mudou para uma novela qualquer por si só. Eita, que tem muita coisa esquisita aqui! Manualmente abaixou o volume que ainda estava no máximo, ensurdecedor. Não suportava barulho. Outra vez canal mudou sem explicação, filme antigo agora.

Não tá certo. Sentou no improvisado sofá e botou reparo no ambiente. Pistache a seus pés, olhos vidrados na tela. Ele não era disso, aqui tem coisa.

Não conseguia fazer ligação com nada. Os canais mudavam, o som aumentava e diminuía sozinho, como se a televisão tivesse ganhado vida própria.

Foi quando resolveu atentar para o cachorro e sua seriedade ali. Mexia a orelha direita, o som aumentava. Bobagem, pura coincidência, mas ficou velhaco, o bicho mexeu a orelha esquerda, o som diminuiu de sumir. Epa!

Passou a mão no lombo do danadinho e esse destampou a abanar o rabo, aí ele viu, os canais começaram a passar em incrível velocidade, no ritmo certinho do abanar.

Era demais, mas só tinha uma explicação. Pistache comeu o controle remoto e de alguma forma agora seus movimentos comandavam a TV. As orelhas o som, o rabo os canais. Olhe, levou um bom tempo para assimilar tudo isso e ensinar o cão a se concentrar, para não atrapalhar um programa ou filme a ser visto. A paz voltou a reinar e hoje, além de latir carinhosamente em amores quando o dono chega em casa costumeiramente esgotado, Pistache já coloca a televisão em seu canal preferido. O amor é lindo. Repito, por conta desta e outras, prefiro bicho a gente.

Tá rindo de quê? Acha que é gozação? Não está acreditando no ocorrido? Te levo lá para ver. Só não pode ser na hora em que passa filme da Lessie, aquela Rough Collie, no Telecine Cult, pois democraticamente a prioridade é dele, o cão. Fica o convite, mas traz o vinho.
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