30/08/2018 às 09h21min - Atualizada em 30/08/2018 às 09h21min

Comendo fora do convencional

ISABELLA FERREIRA | ESPECIAL PARA O DIÁRIO
Você sabia que consumimos hoje menos de 1% do que se é comestível? Estima-se que temos o potencial de 10 mil espécies comestíveis no Brasil, porém 90% dos nossos alimentos vem de apenas 20 espécies. Com essas informações já podemos pensar em diversos problemas e desafios da nossa alimentação, como: a monotonia alimentar, a redução da biodiversidade cultivada na monocultura de alimentos e consequente uso de agrotóxicos para alta produtividade, deficiências nutricionais, alto custo na produção de alimentos, dentre outros.

O restante das plantas comestíveis que não consumimos diariamente receberam do biólogo Valdely Kinupp uma categoria: as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). São todas as plantas ou parte de plantas que não são utilizadas convencionalmente. Muitas são consideradas ervas daninhas, pragas e matos na agricultura convencional, mas para esse biólogo e estudiosos da área, estas plantas são fundamentais para soberania alimentar, combate à fome no mundo, biodiversidade alimentar e ambiental, incentivo à produção local e agricultura familiar, bem como formas de agricultura mais sustentável para o planeta.

Dentro deste universo das PANC existem aquelas que eram consumidas há 3 gerações atrás como a ora pro nobis e a taioba, aquelas que não conhecemos como alimentícias e partes ou consumo não convencionais de alimentos convencionais como o mamão verde, o coração e o pseudocaule da bananeira.

Veja alguns exemplos de PANC:
Raízes e tubérculos: lírio do brejo (gengibre e flores), cará roxo, batata doce roxa, batatinha do tiriricão (sim! O grande temido tiriricão é comestível!), batata yacon, mangarito
Folhas: trapoeraba, beldroega, picão preto, dente de leão, bertalha, folha da batata doce, folha da beterraba, rama da cenoura
Flores: capuchinha, hibisco, chanana (uma branquinha com o centro amarelo que cresce nos canteiros da Avenida Rondon Pacheco), amor perfeito, beijinho, begônia, dália
Frutos: banana verde, mamão verde, araçá, jenipapo, jaca verde, rambutã, maracujá do mato

ALERTA PARA O CONSUMO

Cuidados são essenciais para iniciar seus experimentos e coletas no mundo das PANC. Nem todo mato é PANC: é preciso cuidado e conhecimento para identificar corretamente, evitando a intoxicação por consumo de plantas não comestíveis.
Algumas PANC precisam obrigatoriamente passar por cozimento, como é o caso das folhas da taioba. Muitas PANC são espontâneas e nascem em calçadas, ambientes poluídos e contaminados. Por isso, a recomendação é adquiri-las em feiras (incentivar os agricultores familiares a comercializar essas plantas) e cultivá-las em casa.

Receitas PANC

Sorvete de banana com pétalas de dália
Ingredientes para 2 porções
- 2 bananas bem maduras (nanica ou prata) descascadas, picadas e congeladas
- 15 pétalas de dália vermelha
- 1 colher de sopa de gergelim branco para salpicar
Modo de preparo:
Tire as bananas do congelador e coloque no liquidificador com 10 pétalas de dália. Processe com a ajuda de um socador (uso a cenoura para não estragar a hélice) até consistência cremosa (inicialmente a banana vai esfarinhar). Servir com 5 pétalas e gergelim salpicado.
 
Omelete de caruru
Ingredientes para 2 porções
- 1 xicara de folhas de caruru
- 3 ovos caipira
- 1 dente de alho
- ½ cebola
- 1 colher de sopa de manteiga com sal
- sal e pimenta a gosto
- 1 punhado de salsinha picada
 
Modo de preparo:
Pique o alho e a cebola e refogue em uma frigideira antiaderente as folhas de caruru na manteiga até murcharem (esse processo é importante para reduzir a quantidade de oxalato de cálcio presente no caruru). Bata os 2 ovos com os temperos e adicione ao refogado. Espere cozinhar de um lado e vire para dourar do outro. Sirva com a Salada PANC (receita abaixo)
 
Salada PANC
Ingredientes:
- 1 xícara de Rama de cenoura picada
- 2 Folhas de beterraba rasgadas
- ½ xícara de beldroega (Portulaca oleracea L.)
- Folhas de rúcula
- Folhas de alface
- ½ xícara de tomate cereja cortados ao meio
- 1 xícara de flores comestíveis: maria sem vergonha (Impatiens walleriana), amor perfeito (Viola X wittrockiana gams), capuchinha (Tropaeolum majus L.) e begônia (Begonia semperflorens)
- Molho para salada picante


Salada PANC
 
Modo de preparo: misture as folhas e tomate e decore com as flores para servir.
 
Molho para salada picante:
Ingredientes:
- 4 colheres de sopa de tahine branco
- 1 colher de sopa de salsinha
- 1 colher de sopa de manjericão
- 1 tomate fresco
- 1 dente de alho (sem o miolo)
- 4 colheres de sopa de azeite de oliva
- 1 pimenta malagueta
- 1 colher de chá de sal
 
Modo de preparo:
Bater todos ingredientes no liquidificador até consistência cremosa (caso necessário adicione agua aos poucos para não ficar ralo)

Charutinho de capuchinha
Ingredientes:
- Folhas de capuchinha (Tropaeolum majus)
- Hummus ou outro patê de sua preferência
Modo de preparo:
Passe o patê na folha e enrole formando charutinhos.
 

Charutinho de capuchinha


 
Receita hummus:
- 1 xícara de grão de bico cozido (deixar de remolho por 8-12h antes de cozinhar e descascar)
- 4 colheres de sopa de tahine branco (pasta de gergelim - encontrada pronta em mercado ou casa de especiarias)
- Suco de 1 limão (sem sementes)
- ½ dente de alho grande (retirar o centro do alho – indigesto quando cru) picadinho
- 2 colheres de sopa de azeite extra-virgem
- 1 colher de chá rasa de sal marinho
- ¼ de xícara de salsinha
- Páprica picante para decorar
Modo de preparo:
Deixe o grão de bico de molho durante a noite. No dia seguinte, cozinhe-o em uma panela de pressão até ficar macio. Espere esfriar e processe todos os ingredientes até consistência pastosa.


Referência Bibliográfica:
Livro: Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. Valdely Ferreira Kinupp, Harri Lorenzi. Editora Plantarum


Isabella Ferreira | Especial para o Diário
* Nutricionista Funcional e Consultora de PANC | [email protected]


 
 

 
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