04/03/2018 às 05h42min - Atualizada em 04/03/2018 às 05h42min

Estudo atesta efeito de antidepressivos

Remédios são até 113% mais eficazes que placebo e devem ser chave para tratamento de 350 milhões de pessoas

GABRIEL ALVES | FOLHAPRESS

Volta e meia a eficácia dos antidepressivos é questionada. Seria a explicação para o funcionamento deles o famigerado efeito placebo, ou seja, eles não passariam de um mero embuste farmacológico?

A melhor evidência disponível até o momento diz que, na verdade, a resposta é não –antidepressivos funcionam, e são superiores ao placebo.

Há motivos fortes para se engajar nesse debate. Além do impacto da depressão na qualidade de vida, há também um grande impacto econômico, responsável por mais de um quinto do que se gasta ou perde (pela falta de produção no trabalho) anualmente com doenças em todo o mundo.

São mais de 350 milhões de pessoas afetadas (número superior à população dos EUA), que custam direta ou indiretamente US$ 210 bilhões (R$ 685 bilhões) ao ano.

Se o placebo equivalesse aos antidepressivos em termos de eficácia, dezenas de bilhões de dólares poderiam ser economizados. Para o bem ou para o mal, não parece ser o caso.

Um estudo publicado na última semana na revista médica "The Lancet" considerou dados de mais de 100 mil pacientes, de 522 outros trabalhos, para chegar à conclusão de que antidepressivos, sim, são eficazes.

Em todos esses estudos, os pacientes foram distribuídos aleatoriamente entre os grupos tratados com a droga em questão ou com placebo. Os pesquisadores não sabiam quem fazia parte de qual grupo até o fim da pesquisa, o que reduz a chance de erros decorrentes do viés de observação (ou da torcida do cientista).

Resultado: a chance de uma pessoa melhorar com antidepressivos é de 37% a 113% maior do que com placebo.

Ter dados de tantos pacientes é fundamental, já que, no curto espaço de tempo estabelecido – apenas oito semanas –, os efeitos dos remédios tendem a ser discretos. O tratamento foi tido como bem-sucedido nos pacientes cujo escore relacionado à gravidade da depressão, calculado por um profissional de saúde, fosse reduzido em mais da metade.

Sabe-se que há mais de 40 antidepressivos no mercado, mas, para essa meta-análise, foram considerados os estudos de 21 drogas para as quais havia boa qualidade de evidência na literatura médica. Valiam tanto as comparações entre antidepressivo e placebo quanto aquelas entre dois medicamentos.

Curiosamente, sabe-se ainda pouco sobre o funcionamento de antidepressivos – o que acaba sendo um gargalo para o desenvolvimento de possíveis novas drogas.

Segundo a principal autora do estudo, Andrea Cipriani, de Oxford, os achados são relevantes para adultos que estão passando pelo primeiro ou segundo episódio de depressão. Para os demais casos, a escolha pelo medicamento não é tão simples e depende de outros fatores.

Ela afirma que antidepressivos podem ser uma ferramenta efetiva para tratar a depressão grave, mas isto não significa que as drogas devam ser sempre a primeira linha de tratamento –outras práticas, como terapias psicológicas, podem ser levadas em conta.

A cientista afirma ainda que o paciente deve estar a par dos potenciais benefícios e riscos dos antidepressivos e sempre conversar com seu médico sobre qual seria o melhor tratamento para seu caso.

RANKING

Algumas das drogas analisadas na meta-análise se destacaram, seja positiva ou negativamente.

Considerando eficácia e a taxa de desistência do tratamento (por causa de efeitos colaterais severos, por exemplo), agomelatina, escitalopram e vortioxetina concorrem ao posto de queridinhas dos psiquiatras. Já as drogas fluvoxamina, reboxetina e trazodona podem ter maior chance de se acumularem nas prateleiras das farmácias.

Segundo Sagar Parikh, da Universidade de Michigan, que comentou o estudo para o "Lancet", a pesquisa funciona como um guia em meio a um intenso emaranhado de mais de 2.000 meta-análises que medem e comparam a eficácia desses medicamentos.

Cipriani e colaboradores elaboraram, inclusive, um tabelão em que há comparação duas a duas das 21 drogas avaliadas – prato cheio para hipocondríacos e para profissionais de saúde terem mais sucesso na escolha do melhor caminho terapêutico a ser percorrido contra a depressão.
 
ANÁLISE

Medicina ainda desconhece raízes da doença

RICARDO ALBERTO MORENO* | FOLHAPRESS

Dentre as doenças médicas, a depressão é uma das mais importantes causas de morbidade (adoecer) e mortalidade. Ela ocorre em ambos os gêneros, em todas as idades e níveis sociais.

Apesar da variedade existente de antidepressivos, de 20% a 30% dos pacientes tratados não atinge a recuperação completa e outros até mesmo desenvolvem depressão resistente. O motivo disso é a característica heterogênea da síndrome depressiva, com sintomas e sinais complexos que comprometem todo o organismo – algo que ainda não é completamente compreendido pela medicina.

Outro ponto é que antidepressivos apresentam uma janela de tempo de duas a quatro semanas entre o início do tratamento e o efeito terapêutico. No caso de uma droga ineficaz, isso pode significar mais sofrimento, incapacitação, e tentativas de suicídio.

Em uma fração considerável dos casos de depressão tratados com antidepressivos, porém, há melhora logo nas primeiras semanas, o que tem um bom valor preditivo para o sucesso no tratamento. Em contrapartida, caso não haja resposta parcial em até quatro semanas, são poucas as chances de resposta ou remissão.

É recomendado a alguns pacientes o uso contínuo de antidepressivos –é o caso de quem tem depressão crônica (por mais de dois anos), episódios com tentativas de suicídio ou com sintomas psicóticos e depressões recorrentes, por exemplo.

A depressão tornou-se um problema médico tratável farmacologicamente, tal qual o diabetes e a hipertensão, a partir da descoberta acidental da ação antidepressiva de drogas (iproniazida e imipramina) inicialmente pesquisadas para o tratamento de tuberculose, na década de 1950.

Essas substâncias atuavam modificando o metabolismo de substâncias cerebrais – os neurotransmissores monoaminas –, aumentando a disponibilidade dessas moléculas no cérebro e assim facilitando a comunicação entre os neurônios.

Desde então houve o desenvolvimento de diversas moléculas a fim de tentar driblar os efeitos colaterais sem perder a eficácia apresentada pelas drogas anteriores.

Para uma boa prática clínica recomenda-se usar o antidepressivo em dose terapêutica, incrementando-a conforme eficácia e tolerabilidade até a dose máxima indicada pela posologia, por um tempo de no mínimo 6 a 8 semanas antes de considerar que o paciente seja resistente ao composto. Em caso de retirada da medicação, esta deve ser gradual para evitar o aparecimento de sintomas de descontinuação abrupta.

Desinformação, preconceito e estigma em relação a problemas psiquiátricos são uma realidade no mundo todo. A forma de combater isto é através da educação da sociedade com informações precisas e objetivas baseadas em evidências científicas.

Talvez a pesquisa de novas drogas possa dar um grande salto quando soubermos mais sobre a fisiopatologia da depressão (onde, no organismo, está a raiz da doença).
(*) Doutor em psiquiatria e coordenador do Programa de Transtornos Afetivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP
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