31/10/2019 às 09h04min - Atualizada em 31/10/2019 às 09h04min

Gestão hospitalar requer preparo e dedicação

Lidar com diferentes perfis de pessoas e manter o equilíbrio são grandes desafios

ADREANA OLIVEIRA
A doutora Daniela Falqueto atua na gestão hospitalar do Hospital Santa Clara | Foto: Divulgação

São quase 18h de uma sexta-feira. A doutora Daniela Falqueto havia chegado de uma viagem a trabalho no dia anterior e, após a entrevista, depois do dia todo no Hospital Santa Clara, onde é diretora clínica, tinha compromisso com um dos três filhos. Se ela está cansada? Talvez, mas não é o que aparenta.

Em sua conversa com a Revista D – Saúde, ela relata como entrou na gestão hospitalar, seus maiores desafios e a participação da mulher nesse meio. “Meu papel é ser a interface entre todo o corpo clínico do hospital e a diretoria. Sou o elo entre o hospital e os médicos e vice-versa e participo da Comissão de Ética do hospital.”

Ela está inserida em um ambiente ainda dominado pelos homens, mas, como na medicina em geral, as mulheres estão conquistando mais espaço. “Acredito que a mulher tem uma capacidade de liderança empática muito maior que a do homem. Diariamente fazemos o milagre de nos multiplicarmos. Não sou muito diferente das mulheres modernas. Estou numa tripla jornada: atendo no consultório que amo, na gestão que é motivadora e tenho minha família. É uma arte equilibrar tudo isso e não deixar faltar nada em nenhuma delas.”

Em seu trabalho, as demandas dos médicos são levadas à diretoria e vice-versa. Daniela também representa cerca de 450 médicos em uma equipe multidisciplinar do Santa Clara.

Há 20 anos, a clínica médica e gastroenterologista adquiriu cotas do hospital e resolveu conhecer um pouco mais sobre gestão hospitalar. “Até então, eu era responsável pelo meu trabalho, atuava de acordo com minhas responsabilidades no consultório. Logo já comecei a me preocupar com o futuro do hospital em geral”, lembrou.

Depois de três mandatos no Conselho de Administração do Santa Clara, assumiu a vice-diretoria clínica por dois mandatos antes de chegar à diretoria clínica. As responsabilidades são divididas entre ela, o diretor financeiro Luiz Alessandro Cardoso e a diretora técnica Tânia de Fátima Alves.

Daniela explica que teve que investir nas próprias competências. “O meu trabalho agora depende de pessoas, e pessoas dependem do meu trabalho. Tive que desenvolver competências de liderança, saber exercê-la. E não falo sobre poder ou autoridade, mas da figura do líder como uma pessoa que inspira, que influencia, que engaja e coordena o trabalho e, principalmente, agrega”.

A doutora percebeu que havia nela características que até então não eram tão demandadas e, com o tempo, aprendeu a exercer mais a diplomacia, gerenciar conflitos, comunicar-se e ser uma facilitadora de negociações. “São características que desenvolvemos, primeiramente, dentro de nós mesmos e depois trabalhamos com os outros.”

O aprendizado na gestão é contínuo, porque o ambiente hospitalar é complexo. “Você lida com várias nuances. São processos, pessoas, saúde do consumidor, do cliente, aspectos psicoemocionais o tempo todo, tanto do cliente interno quanto do cliente externo. São públicos diferentes ao mesmo tempo, o que torna a função desafiadora e gratificante.”

Hoje ela se sente mais segura do que quando começou e está feliz. “Conheço mais o ambiente hospitalar, como funciona cada processo, e o fato e atender pacientes há 25 anos ajuda”, disse ela, que é natural do Espírito Santo, radicada em Uberlândia desde que começou a exercer a profissão, e uma apaixonada pela cidade, onde constituiu família.

Para Daniela, os principais desafios para 2020 é acompanhar os avanços tecnológicos na medicina. “Está tudo mudando tão rápido, parece que a gente está sempre correndo atrás. Não podemos procrastinar nem podemos ser muito afoitos, para evitar o efeito manada. É preciso ter jogo de cintura e agilidade.”

Sobre a medicina hoje, Daniela é enfática. “Estamos passando por uma revolução absurda. Essa evolução acontece desde sempre, mas, nos últimos anos, a inovação tem sido disruptiva, e a diversidade é imprescindível para a inovação.”

Daniela cita a telemedicina, o machine learning (processo pelo qual as máquinas aprendem com os dados), a inteligência artificial, a genômica – que chega para fazer parte do diagnóstico genético do paciente. “Questiono-me sobre qual vai ser o papel do médico nesses novos tempos. Não dá para competir com a máquina no que ela nasceu para ser – rápida e com gigantesca capacidade de armazenamento de informação. Eu não vou ter HD do tamanho de uma máquina e terei que ser cada vez mais humana. Precisamos resgatar algo que a medicina tem perdido: o contato com o paciente. Tem coisas que um robô nunca vai fazer.”

Para Daniela, se o médico se automatizou muito nos últimos anos, deve fazer o caminho inverso e restabelecer o contato com o paciente, a confiança, ver os aspectos psicossociais, emocionais e espirituais do ser humano. Isso mesmo, espiritualidade. Segundo Daniela, as sociedades brasileiras já orientam que, dentro dos consultórios, recomende-se ao paciente, de forma cautelosa, buscar a espiritualidade, o que era inadmissível alguns anos atrás. Hoje vemos que isso está convergindo. A ciência não andava junto com a espiritualidade. Agora, a própria ciência tem provado que a espiritualidade agrega saúde.

FAYAD

Uma década de realizações


Gilson Fayad ficou 10 anos à frente da diretoria financeira do Santa Genoveva | Foto: Adreana Oliveira

O ano de 2019 marca o fim de um ciclo na vida do pediatra Gilson Martins Fayad. Após dez anos como diretor presidente do Complexo Hospitalar Santa Genoveva, ele deixa o cargo com a sensação de dever cumprido. Em entrevista à Revista D – Saúde, faz um balanço da gestão, a começar por quando recebeu o convite do doutor Luizote de Freitas.

“A primeira coisa que falei com ele foi: ‘eu não quero lidar com doutor’, porque eu conheço doutor. De maneira geral, a formação dele é para ser o centro das atrações. Nós temos isso dentro da gente. O médico é criado assim, não vejo como defeito, é normal”, comentou ele, que divide a diretoria com Geraldo Carneiro Júnior (diretor clínico), Edson Gonçalves Júnior (vice-diretor clínico), Osvaldo de Freitas Filho (diretor técnico) e Marco Túlio Alvarenga Silvestre (diretor administrativo e financeiro).

Fayad sabia que muita coisa aconteceria durante a gestão e mexeria no conforto do médico. Optou pela área financeira, mas, com o tempo, agregou outras competências administrativas. “É uma posição que poucos têm coragem de assumir. No hospital somos 216 sócios. Formar duas chapas para concorrer é praticamente impossível. Muita gente reclama, mas, na hora de se candidatar, ninguém quer. Eu acabei descobrindo que gostava mais dessa área do que imaginava.”

Ao assumir novas funções, primeiramente assumiu-as com o coração, com a vontade de fazer a diferença, e logo vieram estudos, leituras sobre gestão e participação em vários congressos nacionais e internacionais.

Há três anos, o Santa Genoveva entrou para a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), e Fayad aproximou-se de gestores de outros grandes complexos, como Albert Einstein (SP), Sírio-Libanês (SP) e Mãe de Deus (RS), e, ao participar de reuniões periódicas, aprendia mais. “Isso me trouxe conhecimentos que poucos aqui têm, e pude implementar junto com os colegas, muitas melhorias. Nós fizemos investimentos em qualidade, estrutura física e tecnologia. Hoje somos acreditados internacionalmente [pela metodologia de excelência canadense IQG – QMentum Internacional]. Quando assumi, era uma casa de saúde, cada um fazia como queria, não havia um processo.”

Foram R$ 40 milhões em investimentos no geral. Entre os maiores aportes estão a sala híbrida, inaugurada em 2015, a primeira em Minas Gerais, que permite intervenções minimamente invasivas e, ao mesmo tempo, uma cirurgia aberta e exames na mesa. O investimento mais recente foi na área de hotelaria com a tecnologia Hospital Inteligente, que permite um acolhimento mais humano ao paciente, tudo controlado via tablets e com cara de lar.

As áreas de UTI e UTI infantil, hemodinâmica, o centro de transplante de medula óssea são outras grandes conquistas. “Só tem uma coisa que ficou para a próxima gestão: nosso pronto atendimento, e o projeto está pronto para ser desenvolvido. Temos um corpo clínico forte, bem preparado, e posso dizer, com toda segurança, que não é preciso sair de Uberlândia para realização de procedimento nenhum”.

Para Fayad, o mais importante na gestão é saber filtrar o que há de melhor, como todos os avanços proporcionados pela telemedicina, e aplicar o que for melhor para o hospital e para os pacientes.

“Saio tranquilamente porque somos um grupo forte, estou deixando a direção, mas não estou abandonando o barco. Sempre que precisarem de mim é só chamar. Sofri críticas, sim, muitas, mas não tenho nenhuma mágoa. Nossos projetos aqui têm planos de continuidade.”

Fayad segue em gestão hospitalar em Catalão (GO), para onde vai graças ao trabalho no Santa Genoveva. “Inclusive já é um parceiro nosso aqui, é uma ideia antiga formar uma rede forte na região”, finalizou ele, que deixa o cargo no dia 31 de outubro.







 

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