26/11/2017 às 05h52min - Atualizada em 26/11/2017 às 05h52min

Frustração e medo atingem Amador

Após episódio de violência em jogo no último domingo, a tradicional competição uberlandense perdeu parte do brilho

ÉDER SOARES | REPÓRTER
Primeira partida da final aconteceria hoje no Airton Borges, mas foi adiada até definição do TJD da LUF / Foto: Divulgação/Secom PMU

 

A expectativa para a manhã deste domingo era de um estádio Airton Borges lotado para a primeira final da Divisão Especial do Campeonato Amador, porém, para a tristeza dos torcedores e amantes da competição, a expectativa se transformou em frustração e medo.

A reportagem do Diário do Comércio tentou contato com vários torcedores e dirigentes de equipes, mas em raros casos aconteceram manifestações sobre os acontecimentos do último domingo (19), quando torcedores do Luizote invadiram o campo de jogo para agredir ao árbitro da partida, João de Souza Filho.

Nos bastidores, em conversas com pessoas ligadas ao futebol amador, que não quiseram se identificar, correm informações e relatos de que alguns torcedores do Luizote estariam ameaçando o árbitro João de Souza.

A nossa reportagem entrou em contato com juiz de futebol. João de Souza pediu para não dar entrevista neste momento, mas disse que, em breve, irá se pronunciar em forma de nota sobre o ocorrido.

 

CASO

No último domingo (19), na segunda partida da rodada dupla das semifinais, no Estádio Airton Borges, Tabajara e Luizote faziam um jogo equilibrado que caminhava para um empate sem gols, o que daria a classificação ao Luizote para final, diante do Tocantins, que na primeira partida venceu o voluntários por 2 a 1.

Depois de agregar cinco minutos além do tempo regulamentar, João de Souza ainda acresceu mais um minuto devido às outras paralizações no jogo. Justamente neste acréscimo saiu o gol da vitória do Tabajara (1 a 0). O resultado levaria a decisão da vaga para as penalidades máximas, motivo da revolta dos torcedores do Luizote, que invadiram o gramado do Airton Borges para agredir o juiz da partida, jogadores e até dirigentes da Liga Uberlandense de Futebol (LUF). O caos só não foi maior devido à rápida ação da Polícia Militar.

 

LUF e TJD

No final da tarde da última quarta-feira (22), a LUF publicou nota oficial em seu site, na qual passou a responsabilidade de decisão do caso para o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da entidade, que está analisando a sumula da partida e toda os fatos ocorridos, para dessa forma tomar uma decisão de como será conhecido o adversário do Tocantins na final da competição. A primeira partida deverá acontecer no dia 3 de dezembro.

“Quanto à decisão sobre o resultado da partida ora suspensa, a LUF, amparada pelo Regulamento da Competição em seu artigo 22, aguardará o julgamento do processo correspondente pelo Tribunal de Justiça Desportiva de Uberlândia (TJDU) para que possa adotar as medidas cabíveis. Por fim, independente do teor da decisão a ser proferida pelo TJDU, a LUF antecipa que respeitará e acatará integralmente o pronunciamento feito pelo Tribunal, por confiar na lisura e imparcialidade deste órgão julgador e espera que fatos desta natureza jamais possam ganhar destaque naquele que é considerado o melhor campeonato de futebol amador do país”, informa a nota.

Por parte da LUF, até a finalização desta edição, o único a se manifestar sobre o ocorrido foi o vice-presidente da entidade, Ricardo Graciano. Bastante sucinto em suas palavras, na edição do Diário do Comércio da última quarta-feira (22) ele já antecipava que a responsabilidade da decisão estaria nas mãos do TJD. “Essa decisão certamente demandará certo tempo. Jogo no domingo (26), pode esquecer".

 

O QUE PODE ACONTECER

O artigo 205, parágrafo primeiro do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) define que a entidade que impedir o prosseguimento de uma partida (caso do Luizote), seja por causa da torcida, evitando a cobrança da penalidade prevista no regulamento, é declarada perdedora.

Já o artigo 22 do regulamento da Divisão Especial do Campeonato Amador também diz que a equipe causadora da confusão deverá ser punida com a perda da partida. Sendo assim, como o Luizote venceu o primeiro jogo, em teoria, haverá a necessidade de cobrança das penalidades.

 

OPINIÕES

Profissionais e torcedores dividem decepção

O treinador do Tabajara, Celivaldo Silva, o Pezão, afirmou que, em 30 anos envolvido com o futebol amador, o jogo de domingo passado foi o fato mais assustador presenciado por ele.

“Independentemente da decisão que sairá, estou pensando seriamente em abandonar o amador. Tive que sair em um carro de um amigo, porque pessoas estavam vigiando o meu carro para que eu não saísse. O Tabajara não tem culpa de nada e não merecíamos passar pelo o que passamos”, disse.

Já o técnico do Luizote, Wisner Dantas, também lamentou o fato e disse ter sido pego de surpresa. Ele ainda defende que os pênaltis sejam batidos para haver um vencedor dentro de campo.

“Ainda estamos tentando entender o que ocorreu. Não conseguimos controlar o ímpeto do ser humano, principalmente na multidão. O jogo ocorreu dentro da normalidade até que tudo perdeu o controle. As agremiações não têm culpa e o campeonato não pode ser manchado por isso. Por esse motivo, defendo que os pênaltis sejam batidos”, ressaltou Dantas.

No outro lado da decisão, apenas aguardando o desenrolar da situação, o treinador do Tocantins, Guilherme Ferreira, espera que o fato sirva de lição para que nunca mais volte a se repetir no futebol amador.

“A gente que respira o futebol amador sempre quer o melhor, principalmente pelo impacto social. Estamos felizes por estar na final, mas muito tristes pelo episódio lamentável, como estaria independentemente de quem fossem as equipes envolvidas”, disse Ferreira, que falou ainda sobre o que pensa do sentido real do amador uberlandense.

“O legal do amador é sair para se divertir, levar a família, e não para ficar com medo e se machucar. É muito triste tudo o que aconteceu. Espero que sirva de lição e que os órgãos competentes possam punir os envolvidos e culpados. Os jogos precisam acontecer ali naquela estrutura maravilhosa, e não pode deixar com que vândalos tomem conta do espetáculo”, afirmou Ferreira.

O narrador Donizete Moreira, da Rádio América AM, que há dez anos cobre o esporte na cidade, entende que é preciso investir mais na estrutura da competição.

“Na minha opinião, o nosso futebol amador paga o preço, hoje, de ser um dos melhores do Brasil. Existe um investimento em boa parte das equipes, digamos de sete a oito equipes que têm estrutura de times profissionais. A rivalidade cresceu entre essas equipes de tal modo que se tornou um caminho sem volta. Todo ano temos grandes jogos nas semifinais e final da competição. Muito se investe em atletas, que são buscados em outras praças, mas esquecem de que um trabalho de conscientização em conjunto".

 

TORCEDOR

O músico Rogério Fagundes é daqueles que fazem questão de acordar todas as manhãs de domingo para ir até algum dos poliesportivos da cidade. Para ele, a Divisão Especial deste ano ficou manchada e já perdeu o seu brilho. “Eu estava comentando um dia antes das semifinais que o Amador deste ano estava sendo o melhor que já acompanhei em mais de 20 anos, isso pelos jogadores e grandes jogos que eu vi. Mas este ato impensado de alguns torcedores manchou uma competição que estava maravilhosa. É uma pena, pois para muitos iguais a mim, a competição acabou".


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