04/06/2017 às 05h03min - Atualizada em 04/06/2017 às 05h03min

Esportistas cobram mais apoio de empresários

Atletas olímpicos e paralímpicos são os que mais sofrem com o descaso do empresariado local

EDER SOARES | REPÓRTER
Rodrigo Parreira, medalhista nas Paralimpíadas do Rio, e o treinador Leandro Garcia / Foto: Eder Soares

 

Ser atleta, seja em qualquer modalidade de esportes no Brasil, não é uma tarefa fácil. Com exceção de esportes mais populares como o futebol e o vôlei, que recebem milhões em investimentos, principalmente da iniciativa privada, o restante precisa dar os seus “pulos” e, muitas vezes, usar até a criatividade para viabilizar as suas participações em competição dentro e fora do país. Em Uberlândia existem alguns exemplos claros de desproporção de investimentos e falta de incentivo, principalmente aos esportes olímpicos e paralímpicos, aqueles que mais sofrem com o descaso de quem poderia dar o seu apoio.

Leandro Garcia é treinador e coordenador da equipe Minas Olímpica, time de atletismo paralímpico que treina na pista Ádria dos Santos, no Sesi Gravatás, e ganha diversos títulos em provas pelo Brasil.  Ele reclama da falta de visão, principalmente da iniciativa privada, que acaba fechando os olhos para os talentos paralímpicos. “Nós temos hoje, em Uberlândia, uma equipe que é referência entre as melhores equipes do país e que tem conquistado grandes resultados. E o investimento local é muito pequeno. A equipe é mantida pela Associação Paralímpica Uberlandense (Apuv) e pela Associação dos Paraplégicos de Uberlândia (Aparu), que são duas ONGs. Você percebe que o terceiro setor é praticamente, sozinho, o responsável pelo esporte paralímpico”, disse Leandro.

Segundo ele, os investimentos que as mantenedoras adquirem vêm, em grande parte, de entidades governamentais, sendo pouca coisa da iniciativa privada. “A gente precisava aumentar o nível de investimento dos empresários, porque nós temos uma modalidade que além de garantir o esporte para o deficiente e a melhora da qualidade de vida deles, ela também proporciona a realização de sonhos, que é o chegar a ser atleta. O projeto não visa somente formar atletas, mas aqueles que têm talento tem a oportunidade de crescer na carreira”, afirmou o treinador, que fez questão de citar o maior exemplo de sucesso na atualidade do paratletismo uberlandense, Rodrigo Parreira, que conquistou duas medalhas, sendo uma de prata no salto em altura e outra de bronze, nos 100m rasos, nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016.

“O Rodrigo Parreira é o nosso maior exemplo de sucesso e que deveria servir como estímulo para a iniciativa privada. Um atleta de extrema capacidade e que se dedica ao esporte como poucos, servindo inclusive como referência para que outros atletas possam se espelhar. Temos a Joana Silva, finalista nos 400m nas Paralimpíadas de Londres 2012 e Pequim 2008, ou seja, nas três últimas Paralímpíadas nós tivemos resultados muito expressivos e atletas chegando às finais constantemente, bem como em Mundiais, Panamericanos e outras competições, nas quais os resultados são constantes. Para este ano já temos atletas classificados para o Campeonato Mundial de Londres”, disse Leandro, que trabalha há 14 anos no esporte paralímpico.

 

 

HALTEROFILISMO

Weverton Santos é treinador da equipe de halterofilismo paralímpico Uberlândia/Futel e também convive com o descaso do empresariado, que prefere investir em futebol e vôlei, deixando de lado atletas que, para não desistir do sonho, precisam conciliar o esporte com emprego. “Não podemos reclamar do pode público que nos ajuda muito cedendo uma estrutura muito boa, como a que temos na Arena Sabizinho. O que a gente sempre espera é que o empresariado mude a sua ideia em relação ao esporte paralímpico, pois existem aqui pessoas que são atletas e formadores de opinião. São pessoas dedicadas e que são exemplos. Eu sempre digo, que se um dia eu for montar uma empresa, eu contrataria somente atletas, pois o atleta é responsável e sabe que precisa ser responsável, que é preciso ter compromisso com os seus horários. Vejo que o esporte forma o bom funcionário. Acho que os empresários deveriam ver isso, que o esporte além de tudo prepara a pessoa para a sociedade”, disse.

O atleta Luciano Dantas foi campeão da etapa regional do Circuito Paralímpico este ano, em Brasília. Ele recebe cerca de R$ 900 do Programa Bolsa Atleta, do Ministério do Esporte, que subsidia apoio em dinheiro para os três melhores colocados em suas categorias. O apoio varia entre R$ 370 e R$ 3.100, dependendo do nível de competições. Hoje, Luciano vive dedicado ao esporte, mas já precisou trabalhar e conciliar o dia a dia com treinos e competições. “Você vê que mesmo sem investimento nós já conseguimos bons resultados. Agora imagina se tivesse um maior apoio por parte dos empresários? Com certeza, tanto nós aqui do halterofilismo como de outros esportes teriam muito mais condições para conquistar grandes resultados. Infelizmente, nós recebemos muitos ‘nãos’ e isso arrebenta tudo”, disse Luciano.

 

PORTAS FECHADAS

Coordenadores também ‘suam’ a camisa para captar recursos

Aqueles que estão na coordenação dos esportes são quem também, na grande maioria das vezes, precisam ir atrás dos recursos para custear a estrutura necessária dos atletas. É comum que projetos voltados para o esporte sejam aprovados no Ministério do Esporte, mas o grande problema está justamente na hora de captar o dinheiro junto à iniciativa privada. Sandra Rodrigues é coordenadora do Clube Desportivo para Deficientes de Uberlândia (CDDU). Ela garante que o investimento é muito pequeno por parte dos empresários, que precisam mudar urgentemente o olhar para o esporte olímpico e paralímpico.

“A gente procura o empresário e ele, na maioria das vezes, sequer nos atende, mesmo você estando em mãos com um projeto bem elaborado e que seria muito interessante para ele. A gente trabalha muito mais com a palavra ‘não’ do que com a ajuda e o investimento. Eu não digo que existe preconceito, mas sim que eles (empresários) demonstram falta de conhecimento. Eles não conhecem o esporte paralímpico. As últimas Paralimpíadas serviram muito para demonstrar a força do esporte, mas infelizmente aquela comoção nacional não serviu para mudar o olhar deles em relação ao esporte”, afirmou.

Emilene dos Santos é supervisora de iniciação esportiva das modalidades paralímpicas da Fundação Uberlandense do Turismo, Esporte e Lazer (Futel). Ela acredita que enquanto não acontecer uma mudança no olhar dos investidores em relação aos esportes menores, não haverá modificações significativas. “A questão é tão difícil que basta você ver como exemplo o caso do Rodrigo Parreira e do Ruiter Silva (natação), nossos atletas medalhistas nos Jogos Paralímpicos no Rio. As medalhas e o esforço deles não trouxeram nenhum retorno financeiro para eles. Acho que os clubes e atletas esperam que isso venha pelo menos em médio prazo. Mas, de imediato, isso ainda não aconteceu e são atletas que estão convocados para o Mundial de suas modalidades. São atletas de Uberlândia e que hoje não têm este reconhecimento”, afirmou.  

 

PROJETO

Na edição do último domingo (28), o Diário do Comércio trouxe uma matéria com alunos do projeto Nasce, no Poliesportivo do bairro Jardim América, no qual 120 alunos têm aulas de jiu-jitsu, futebol e capoeira. As crianças e adolescentes do projeto, que existe há quatro anos, ainda não conseguiram sair de Uberlândia nenhuma vez este ano para competir justamente por falta de apoio financeiro.

Os poucos recursos vêm através de parcerias com o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, mas que ainda ficam muito aquém do esperado. “É claro que pedimos uma maior atenção, principalmente dos empresários locais, pois o Nasce tira crianças das ruas, da marginalidade e do convívio com as drogas. Na verdade, entendo que esta é a nossa maior luta no projeto, e não apenas ganhar troféus e medalhas. Gostaríamos de fazer muito mais pela nossa cidade, principalmente por estas crianças e adolescentes. A gente se sente muito feliz em ver a dedicação de todos eles e a satisfação que eles têm de vir para os treinamentos”, disse o sargento da Polícia Militar Denílson Borges, coordenador do projeto.

 

FUTEBOL

Para quem pensa que o problema de falta de apoio e patrocínio está restrito aos esportes especializados, olímpicos e paralímpicos, no futebol o problema também acontece. Por muito pouco, o Uberlândia Esporte clube não fechou as categorias de base neste ano. O motivo é que o clube não conseguiu captar junto à empresas locais o recurso mínimo (R$ 320 mil) exigido pelo Ministério do Esporte para a liberação do dinheiro para custear as bases. Através de um recurso, deferido na última semana pelo Ministério, foram liberados R$ 290 mil, suficientes para tocar pelo menos o time sub-17 no restante do ano.

“Um time igual ao Goiás gasta em torno de R$ 1 milhão por mês nas suas categorias de base, o que dá R$ 12 milhões por ano. Pra gente tentar fazer um trabalho mais amplo teríamos que captar pelo menos a metade deste valor que o Goiás tem, mas não conseguimos. A gente tenta em torno de R$ 1,2 milhão no ano, o que já seria um valor que daria para disputar o Campeonato Mineiro do Sub-15 ao sub-20 e ficar sempre em atividade”, disse o diretor das categorias de base do UEC, Gilmar Pereira.


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