23/10/2017 às 05h02min - Atualizada em 23/10/2017 às 05h02min

Demorou, mas caiu a minha ficha

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Na última sexta-feira, postei no Facebook um comentário sobre as posições políticas de Jair Bolsonaro, que havia visitado Uberlândia no dia anterior. Por trabalhar em Ituiutaba, não pude ir à exposição de Bolsonaro. Mas, li a reportagem sobre a fala dele aqui no Diário do Comércio e quis fazer algumas considerações na minha página na rede social.

Apenas um parêntese, antes de eu continuar falando sobre a minha postagem. Mesmo discordando frontalmente de várias visões do deputado, gostaria de tê-lo ouvido pessoalmente, pois continuo defendendo a importância de se ouvir todos os lados, mesmo os que não pensam como eu. No caso do pré-candidato à Presidência, acho isso ainda mais importante, pois ele está crescendo nas pesquisas eleitorais e tenho visto, cada vez mais, inúmeros conhecidos meus, de todas as classes sociais, declararem abertamente o voto a favor de Bolsonaro. Sinto ser preciso compreender esse movimento que está acontecendo no país, até para, se for preciso, ter argumentos para um bom debate. Tapar os ouvidos para a fala de pessoas que não pensam como você é um bom caminho para fazer com que você mesmo fique, cada vez mais, desprovido de uma argumentação forte e consistente.

Voltemos ao assunto inicial deste texto. Publiquei algumas linhas sobre Bolsonaro, como dito. O problema é que, em poucos minutos, começaram a chover comentários na minha postagem, a maioria deles discordando da minha visão. Problema? Bom, até aí, não. Se você posta alguma coisa, especialmente na área de política, religião ou futebol, pode esperar que aparecerão comentários contrários à ideia que você expôs. Achar que isso não vai acontecer ou desejar que não aconteça, sinceramente, é sinal de que você está precisando de um choque de realidade. Mas, qual seria então o problema? Simples: começaram a aparecer instantaneamente comentários que não buscavam confrontar as minhas ideias, mas me intimidar e me ofender.

Ingenuidade minha. Acho que eu é que estava precisando de um choque de realidade. Eu esperava os comentários contrários, mas não me dei conta da possibilidade de receber mensagens ofensivas a mim mesmo, fora do campo do debate ideológico. Como não percebi isso? Desde, ao menos, as manifestações de junho de 2013, falar de política nas redes sociais é pedir para que você seja atacado de todas as maneiras, não importa o seu posicionamento. Eu já sabia disso, até porque, há vários anos, eu publico rotineiramente opiniões sobre comportamento, religião, política etc., quase sempre recebendo comentários ofensivos do ponto de vista pessoal. Como então pude me surpreender com as agressões perpetradas por seguidores do Bolsonaro? Sabe quando você fica espantado com a própria ingenuidade? Foi o que aconteceu comigo. Mesmo não sendo a primeira vez, eu me senti muito mal por receber aqueles ataques gratuitos.

Apaguei meu comentário pouco tempo depois. Na verdade, não apaguei, mas tornei a postagem visível apenas para mim mesmo. Além disso, tomei a decisão de não mais publicar opiniões políticas na internet, pois eu me recuso a participar de conversas que fujam do debate de ideias para entrar no campo das ofensas pessoais. Se tem uma coisa que eu primo é pela boa educação, pela cordialidade, pelo trato humano e pacífico. Quem me conhece pessoalmente, inclusive os advogados que fazem audiência comigo, sabe que eu não levanto a voz, que não tenho por hábito usar as palavras para agredir, ameaçar, intimidar. Assim sou na vida pessoal e não há razão para entrar em diálogos virtuais que diferem do que primo nas conversas do tipo “olhos nos olhos”.

Eu já sabia que as redes sociais haviam liberado o monstro que existe em cada um de nós. Ali, despejar palavras ofensivas tornou-se uma característica indissociável da própria rede. As pessoas, em geral, não conseguem ter um diálogo civilizado por mais de cinco minutos. À primeira ausência de argumento, aparece a semente da ofensa pessoal. Escrevi sobre isso em minha dissertação de mestrado, embora não especificamente sobre redes sociais, mas sobre os espaços de jornais destinados aos comentários de leitores. Eu sempre tive a exata noção de que tais espaços da internet não são os locais adequados para discussões civilizadas. Talvez faltasse, para mim, sentir-me verdadeiramente ofendido por um comentário para, então, perceber que é inútil abrir discussões sobre política, religião ou comportamento nas redes sociais. Não que esses debates não devam existir. Eles apenas não devem acontecer em tais ambientes, pois dali não sai nada que presta, infelizmente. Choque de realidade tomado, fica então encerrada a minha carreira de manifestações do gênero nas redes sociais.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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