16/10/2017 às 05h30min - Atualizada em 16/10/2017 às 05h30min

Oximoro

PAULO CAPPARELLI* | LEITOR DO DIÁRIO

Estou me conectando... Estou-me... Estou. 

Como é difícil me conectar ás vezes. Sinto-me como se passasse boa parte do tempo preso em mim. Ou preso em bolas de sabão.  

Acho tão poético e avassalador olhar bolhas de sabão no vento a voar. É oximoro demais. 

Eu não posso sair de mim. Nem posso entrar em outro. Quero entrar em outros corpos. Vasculhar outras mentes, outras cabeças.  

Queria ser multidisciplinar em outros gêneros e encontrar novos sabores. Queria ser preto, branco, índio, alto, magro, gordo, malhado, mulher, homem, criança, velho.  Mas não sou. E nem poderei ser. 

Como posso me definir? Se não posso ser outros? Se não posso atravessar outros, como posso me definir assim sem ansiedade de dizer o que sou?! Se nem mesmo pude experimentar ser outros, gostaria de ser só pela lei do desejo e da degustação. Posso tocar, mas não posso ser. Jamais saberei quem és... Pois só posso te tocar e não vou ser tolo em dizer que sei bem quem és se eu não fui você, então nunca poderemos ser. Nunca poderemos ser nem eu e nem você a mim.  O que seremos então? Nada. 

Na caminhada da vida me arrisquei. Sim, me arrisquei muito, saber ir e correr riscos é saber qual o caminho que cavalga a felicidade. E olha que nem procuro por ela. Mas eu ando em caminhos perigosos porque sei que ela também passa por eles.  

O caminho das pedras é para quem gosta de sofrer. O caminho das flores é para quem gosta de vida boa, calma e sem muita aventura.  

Só o caminho do risco me põe no grau da experiência de racionalização da vida.  Porque eu não tenho medo de me perder no meio de tanta gente já perdida. Eu não tenho medo de sofrer no meio de tanta gente já iludida. Achando que amanhã será um novo dia e as coisas vão mudar. Sim, as coisas vão mudar porque a temporalidade pede isso.  

Mas nada faz sentido ou razão se não corrermos o risco.  

Também não vou me aventurar demais. Sair debaixo de tempestades, me jogar em mar aberto, saltar de um avião sem para quedas. Mas vou correr o risco de andar ao seu lado por uns minutos e me deixar levar pelas suas ideias, seus pensamentos.  

A diferença entre o meu abismo e o seu abismo é que no meu abismo eu já aprendi a caminhar.  

Então não posso correr tantos riscos assim e ficar tempo demais ao seu lado, nem permitir que você fique tempo demais ao meu. 

Eu me desconheço tão bem que se eu bem quisesse eu amarraria uma corda na tua cintura para guiar-te na beira do meu abismo. Amarraria por 2 razões, uma por questão de segurança e a outra por obsessão em estar ao meu lado. 

Estar comigo é andar na beira do abismo.  E nesse ponto eu me conheço bem para confundir você.  

Eu só não entendo a todos os outros que são iguais na espécie, mas diferentes nas razões mentais. Eu só não os entendo porque eu não os mergulho dentro. 

Muito maior ainda é a tolice de você achar mesmo que sabe quem fui, porque o que estou sendo no momento presente só eu sei.  Então. Desista, essa batalha já é perdida.

Depois eu vou pensar por alguns instantes que tudo parou e que tudo é lindo e vasto. Quando minha verdade é toda oximora.  

A arbitrariedade da vida me confunde. E eu amo a ilusão, porque dela nascem coisas irreais que nunca colocarei nas mãos. Essa matriz que hoje vivo e me vejo nela nada mais é que uma grande ilusão e também é oximoro.  

Não entendeu?  O contrário da ilusão é a realidade!  

Por isso que somos abismos nesses platôs da vida. Cada qual com duas fendas. Cada qual com seus mistérios.  

Então não me arisco demais a ir lá no fundo do seu abismo,  entende?  Mas fico, me divirto na beirada tranquilo, e feliz até por vezes. 

Me entender mesmo é difícil se estiver de olhos abertos. Então é preciso fechar os olhos para se abrir.  Entender a minha alma de olhos fechados, com as janelas abertas para dentro é muito mais fácil. E talvez olhando a minha alma você entenda a sua.

(*) Escritor

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