27/08/2017 às 05h44min - Atualizada em 27/08/2017 às 05h44min

Eu não minto, eu não sou assim

ALEXANDRE HENRY* | COLUNISTA

O título acima é uma mentira, pois não há quem não minta. Aliás, é até difícil definir o que é verdade e o que é mentira, já que a verdade, segundo me ensina o dicionário, é a propriedade de estar conforme com os fatos ou a realidade. Mas, cada um enxerga os fatos e a realidade de acordo com seus próprios filtros, baseado em suas experiências pessoais, traumas, alegrias, frustrações e sonhos. Enfim, o que é verdade para mim pode não ser para você.

Deixemos, porém, essas digressões de lado, pois eu quero falar aqui é da mentira que todo sabe que é mentira mesmo, como a velha história do pneu furado para justificar um atraso. Essa, eu tento evitar. Primeiro, porque eu tenho uma péssima memória, algo incompatível com todo bom mentiroso. Segundo, porque eu acho que o desprezo à verdade é uma falha grave de caráter. Terceiro, porque eu acredito que vicia. Você já reparou que a pessoa que conta uma mentira geralmente o faz de forma rotineira, como um escape para não confrontar as responsabilidades e cobranças que a vida traz?

Certo de que esse comportamento traduz uma falha de caráter, tenho tentado ensinar à minha filha que eu não minto e ela também não deve mentir. De vez em quando, fico em uma situação complicada por conta disso. Na semana passada, por exemplo, coube a mim a inglória tarefa de levá-la para colher sangue. A coitada tinha que colher doze tubos de sangue para exames. Eu já sabia que seria um pesadelo, mas não quis mentir. Quando paramos na porta do laboratório, ela reconheceu o lugar e me perguntou o que a gente faria ali. “Exames, minha filha” – respondi. “Mas, eu não vou fazer, não é, papai?” – ela perguntou, já com lágrimas nos olhos. Foi difícil manter minhas convicções, mas não teve outro jeito: “Vai, filha, vai. O papai vai tirar sangue, mas você também vai fazer exame. Vai doer um pouco, mas passa”. O choro virou um berreiro e lá fomos nós dois para o matadouro.

Eu poderia ter inventado uma história qualquer, especialmente para as lágrimas não chegarem com antecedência, mas eu não quis. Dizer que apenas eu faria exames e, chegando lá, colocá-la para tirar sangue, passaria a mensagem de que eu minto e essa imagem eu não quero que ela tenha. Doeu? O choro durou mais tempo do que poderia durar? Sim, só que ela continuou tendo a certeza de que o pai dela diz a verdade. Reforço isso sempre: “Filha, papai não mente para você”. 

Também tendo ensinar a ela que promessas devem ser cumpridas. Nada de dizer que, se ela fizer isso ou aquilo, ganhará um presente que se sabe que nunca virá. Se você promete, deve cumprir. O valor da palavra deve ser passado desde o berço e a melhor forma é dando o exemplo. Pouco antes das agulhadas, eu disse que, saindo dali, iríamos comprar um presente para ela. Quando saímos, a pequena estava tão exausta e tão dolorida que fomos direto para casa. No final do dia, ao pegá-la na escola, porém, eu fiz questão de levá-la a uma loja para comprar o tal presente, ressaltando que estávamos ali porque eu havia prometido que compraríamos um presente depois dos exames. Assim, quando eu promoter algo, ela vai saber que pode confiar, pois vou cumprir.

Esse meu desejo de que ela tenha confiança absoluta nas palavras do pai, porém, não impede que eu trabalhe com a fantasia, ainda que em forma de mentira, até porque a fantasia é uma “mentira do bem”. Depois de vários dias dormindo na cama da mamãe, por conta de probleminhas com a saúde, era hora de voltar para a cama dela. Tarefa difícil, que só quem tem filhos pode imaginar. Entrou em cena, então, a “Fada do Sono”, que protegia as crianças que dormiam na própria cama e deixava um brilho de noite no quarto. Ajudou a aceitar os fatos e, assim que adormeceu, minha esposa deu um jeito de achar uma purpurina qualquer e colocar em um ponto do quarto dela. No dia seguinte, quando falei da visita da “Fada do Sono”, mostrei o “pozinho” que brilha e o sorriso dela foi a coisa mais linda do mundo. Da mesma forma como existe a “Fada do Sono”, existe o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa. Acredito ser importante trabalhar a imaginação e a fantasia. Claro, estou longe de ser perfeito e, por isso, existem também as baratas que andam na cabeça de menina que não lava o cabelo e o escorpião que adora fedor de boca de criança que não escova os dentes. Quando ela crescer, vai saber separar a realidade da fantasia e, se tudo der certo, vai entender que, quanto à realidade, pode sempre confiar em seu pai.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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