02/07/2017 às 05h07min - Atualizada em 02/07/2017 às 05h07min

Os avisos que o destino dá

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

A primeira vez que eu notei foi há alguns meses. Fiz o exame de sangue e apareceu lá: 105 mg/dL. Por precaução, repeti algumas semanas depois e melhorou: 101 mg/dL. Agora, porém, fui tirar a prova dos três e apareceu o que eu temia: 117 mg/dL. Definitivamente, segundo me informou o Dr. Google, eu estou no estágio da chamada pré-diabetes. Uma baita injustiça, pois não sou obeso, o IMC está um pouquinho abaixo de 25, faço alguma atividade física, não bebo com frequência, não fumo e nunca tive pressão alta. Enfim, um moço com bons indicadores de saúde. Acontece que a gente pode até não herdar dinheiro, mas doença familiar é algo que nunca falta na nossa herança. E a minha família, infelizmente, é freguesa da diabetes.

O destino acabou de me avisar que eu preciso fazer alguma coisa ou vou ter sérios problemas de saúde no futuro. A escolha é só minha. Ou eu vou diminuir a quantidade de doces (um vício que tenho), a quantidade de carboidratos (quem não gosta de um bom macarrão?) e aumentar os exercícios, ou vou deixar tudo como está e, daqui a algum tempo, começarei a sentir os efeitos da diabetes.

Você pode até não ter notado ainda, mas são poucos os eventos graves em nossas vidas que surgem do nada, sem um aviso sequer. As doenças são só um exemplo. A maioria delas avisa que vai chegar muito antes de você ter os sintomas mais graves. Aquele meu primeiro exame de glicemia, o que deu 101 mg/dL, era um aviso para eu acompanhar a taxa de açúcar no sangue e ver se realmente era algo esporádico ou se realmente eu estava caminhando para uma diabetes. Os três exames seguidos já são outro aviso, agora para eu mudar de vida.

Fora do campo das doenças, isso acontece também. A maioria das pessoas que morre em acidente de carro por falha própria já tomou outros sustos antes. Lembra daquela ultrapassagem na estrada que quase virou uma batida? Lembra do sinal vermelho que, por sorte, resultou em uma colisão pequena, já que você não estava correndo? São sinais de que você deve ter mais atenção no volante ou vai sofrer um acidente grave. Podemos ir além nos exemplos. Um filho que começa a usar drogas nunca se torna um viciado de um dia para o outro. O destino te avisa que há um problema, mostrando a você que ele está mais ausente, que não te conta mais as coisas, que anda em companhias estranhas, que seu comportamento está mudando para pior, enfim, você está sendo avisado com antecedência. O mesmo pode ser dito de casamentos. Muito tempo antes da traição ou do divórcio, um dos dois dá avisos inconscientes (ou até mesmo conscientes) de que as coisas não vão bem e que algo precisa ser feito para corrigir os rumos da relação. Se você ignorar esses sinais, que nem sempre são discretos, você certamente verá seu relacionamento morrer. Quando enfim abrir seus olhos, vai bater um desespero gigantesco, você tentará atitudes desesperadas para salvar o grande amor da sua vida (só agora você notou que era seu grande amor?), mas já será tarde, na maioria das vezes.

A vida não é tão cheia de segredos assim e nem o futuro é um enigma indecifrável. Quase sempre, você consegue prever o que pode acontecer mais à frente, especialmente acontecimentos ruins. Para isso, basta você ficar um pouco mais atento aos sinais que te chegam a todo instante, alertando sobre um monte de problemas que o amanhã trará caso você continue não dando atenção a esses avisos. Claro, ao menos no começo, não é tão fácil detectar um alerta do destino. Glicemia em 101 mg/dL? Quem diria que isso era um alerta? Se ao menos tivesse dado um valor muito mais alto... Até que, um dia, a visão fica mais turva e aquela cicatriz já não cura com tanta rapidez. Com alguma dose de sorte, a gravidade desse novo aviso poderá representar, mesmo tardiamente, uma chance de mudança, como aquele motorista que sempre fez ultrapassagens perigosas na estrada e um dia teve um acidente grave, mas sem maiores consequências.

Os alertas que a gente recebe da vida, informando sobre os próximos passos do destino, geralmente são crescentes. Quem consegue perceber os mais discretos tem uma chance maior de contornar a situação com mudanças simples. Uma redução no açúcar, alguns km/h a menos na estrada, um pouco mais de cuidado nas ultrapassagens, flores e um convite para jantar com ela em clima romântico. Mas, se você ignorar os primeiros alertas, a vida vai te pedir esforços cada vez maiores para evitar o pior, até chegar o dia em que nada mais poderá ser feito.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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