28/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 28/01/2022 às 08h00min

Nostálgicas lembranças em tempos de pandemia

WILLIAM H STUTZ
A mais preciosa das minhas amigas me contou aventura. Não satisfeito fui conferir. Tristemente vi, ouvi e senti o motivo de sua chateação.
 
Domingo tem cheiro de domingo. Parece lógico, mas não é. Conhece por acaso o cheiro de uma segunda-feira, de uma terça?
 
Os cheiros perfumados começam geralmente nas quintas-feiras, na sexta são mais ainda perceptíveis, explodem em coloridos no sábado e se fixam mansos aos domingos.
 
Portanto, domingo tem perfume delicado e prazeroso. Esse, em particular, emanava em brisas perfume “floral aquático”, idênticos à criação do mágico perfumista Harry Fremont, aliás, a descrição acima pertence a uma de suas obras primas: O Oui! De Lancôme.
 
Este era o aroma daquele domingo: Oui! Acordei cedo como de costume. Janela sempre aberta, claridade suave, cantos de milhões de pássaros e tagarelar de maritacas entraram cedo no quarto. Mais realista do que o rei tomo banho para dormir e ao acordar, racionamento que me perdoe, mas esta, juro, é minha única extravagância de consumo. Atualmente tenho apenas um pequeno cacto para cuidar e um jardim minúsculo, portanto, água fica sempre na taxa mínima.
 
Seguindo plano feito antes de dormir, resolvi correr no Parque do Sabiá e não nos bairros, como faço quatro vezes por semana. Adoro aquele parque, o lugar, as pessoas. Ilha de um verde diferente dentro de uma cidade que parece odiar árvores.
 
Decidido a dar três saborosas voltas, saío manso, trote leve, aquecendo. Incontáveis bons-dias e acenos de mão muita gente conhecida. Fiz caminho anti-horário. Pouco depois da descida do canil da Polícia Militar, começando a subida para chegar ao zoológico – única parte de lá que detesto – sou adepto do fim de todos os zoos do mundo – me deparo com o motivo da tristeza e revolta de minha especial amiga.
 
Um dragão mecânico em rugido insuportável, soltando fumaça de óleo diesel no rosto daqueles que ali vão em busca de ar puro e saúde. Além disso, levantando poeira para todos os lados em total falta de harmonia com um dia de paz e lazer. Um funcionário do parque carregava este monstro às costas: um desnecessário espalhador de folha e poeira a vociferar e cuspir de um lado para outro. Aliás, é exatamente o que este equipamento faz. Parente mecânico dos espanadores domésticos, só serve mesmo para mudar as folhas de lugar. Tudo bem que os usem, mas em pleno sábado e domingo? Muita falta de poesia, de sensibilidade. Folha não é lixo, não é sujeira. Deixe-as lá. Não fazem mal a ninguém e o barulho do nelas pisar é parte do sair urbano. Fumaça e poeira em área onde até fumar poderá (e deve) ser proibido quebram toda a beleza estética de nosso lindo parque. Que sabiá ou outro passarinho vai competir com aquele motor poluidor e inútil em limpeza?
 
Fica aqui um pedido de muitos ardorosos adoradores do Parque do Sabiá. Se acharem que aquele equipamento serve para alguma coisa, por favor, que seja usado em horários especiais, longe das gentes, longe dos bichos.
 
Aliás: “Você sabia que o Sabiá sabia assobiar?” – Durma-se com um barulho desses.

 
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 

 
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