20/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 20/01/2022 às 08h00min

Ao invés de lutar contra a água, por que não criamos alternativas pra ela correr?

DANDARA TONANTZIN, vereadora
Os problemas na Av. Rondon Pacheco datam desde a sua criação em 1981. Abaixo da avenida corre o Córrego São Pedro e o abafamento do fluxo natural das águas aliado com uma infraestrutura baseada em concreto, resulta no caos já conhecido pela população de Uberlândia: os alagamentos. Mas, existe uma solução que contemple a harmonia entre a urbanização e a preservação do meio ambiente? Existem recursos no orçamento para a otimização da Av. Rondon Pacheco? A resposta para as duas perguntas é “sim”.

Algumas cidades do mundo sofrem de problemas parecidos com os enfrentados por Uberlândia. Yu Kongjian, um dos mais importantes urbanistas da China, preocupado com as frequentes enchentes pelo país, criou o conceito de “cidade esponja” para gerir as crises de alagamento no país.

O conceito segue um caminho inverso ao adotado por outros lugares do mundo que passam por enchentes e alagamentos. Ao invés de lutar contra a água, são criadas alternativas para que ela corra normalmente e seja absorvida por diversas superfícies. Normalmente, a gestão das águas das enchentes envolve a construção de canos ou drenagens para conduzir a água da forma mais rápida possível e também o reforço com concretos para que rios e córregos não transbordem, mas uma cidade-esponja procura absorver a água da chuva e deter o escoamento pela superfície.

A ideia é que a cidade funcione como um esponja, ou seja, que tenha vários espaços para conter a água. Em vez de tentar canalizar a água rapidamente para longe em linhas retas, são criadas possibilidades que vão desde o aumento da vegetação e/ou várzeas para reduzir a velocidade da água até superfícies alternativas para que ela escoe, como por exemplo, parques alagáveis, telhados verdes, calçamentos permeáveis e praças-piscinas.

No conceito da cidade-esponja, os parques são projetados para que fiquem alagados em períodos de intensa chuva, geralmente, a vegetação dos parques alagáveis é pensada para que absorva a água e estimule a biodiversidade local. Os telhados verdes, por sua vez, consiste na construção de jardins em cima de prédios e casas para que a vegetação contenha boa parte da chuva e diminua o fluxo de água que vai parar nos bueiros. Os calçamentos permeáveis geralmente são construídos com um material fibroso e funcionam como uma esponja, liberando a água retida de maneira lenta; já as praças-piscinas são espaços com outra utilidade em outras épocas do ano, como quadras, por exemplo, que funcionam como bolsões de água no período de chuva, geralmente, o armazenamento pode durar até 36 horas depois da chuva e um sistema deixa a água fluir gradualmente, para que ela volte para reservas subterrâneas e não seja canalizada para o esgoto.

O conceito de cidade-esponja é uma alternativa possível para que a Prefeitura de Uberlândia dê um jeito na Av. Rondon Pacheco que vai muito além dos recapeamentos após as tragédias. De uma forma que a cidade lide de maneira harmoniosa com a chuva e com a natureza, evitando prejuízos para a população e para a infraestrutura urbana. Para além da área da Av. Rondon Pacheco, também é necessário pensar o seu entorno e as demais áreas da cidade, para que os telhados verdes, os calçamentos permeáveis e as outras alternativas espalhem-se e sejam instrumento para amenizar os períodos de chuva intensa. É sempre importante lembrar que a chuva não é um problema, e sim, a falta de planejamento urbano e de um plano diretor que trate com compromisso o crescimento da cidade de Uberlândia.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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