03/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 03/12/2021 às 08h00min

Uma palavra pode derrubar o governo

WILLIAM H STUTZ
A força da palavra somada a uma boa dose de tola curiosidade leva muita gente a ser guiada por uma simples “cabeça” de matéria. Alguns manuais de redação recomendam que a tal “cabeça” seja forte e impressionante, a ponto de causar tamanho impacto sobre o leitor que possa chamar sua atenção e quase que automaticamente obrigá-lo a deitar olhos sobre o texto. Vocês acham que não pesquisei os principais jargões de redação jornalística? Aí vem minha birra ou, se preferir, implicância com alguns espertos que escrevem. 

Concordo que o título é super importante e deve mesmo ser isca boa para prender leitor, mas tudo tem limite. Não carece ser enganoso como tantos que por aí vemos. O noticiarista, seja ele diário ou “freela”, tem que ter certa noção do estrago ou da irritação que pode causar ao abusar do tal “impacto” ou isca em seu texto. Ora, vejamos. Outro dia me deparei com uma manchete mais ou menos assim: “Famosa, bonita e rica, Ana Hickmann fatura prêmio acumulado da Mega e soma mais alguns milhões a sua conta bancária”. Em rápido pensar me pus a analisar o que li. Sei que existem muitos paparazzi correndo mundo como um Labrador ou Golden Retriever atrás de uma imagem inédita de alguma super celebridade em situação inusitada, que possa lhe render alguns bons dólares (relaxe... a comparação com belos cães não é nenhuma ofensa partindo de mim, pois curto muito mais os animais do que os humanos) Mas, sei também que existe muito paparazzo, (pausa para um pouco de cultura inútil: paparazzo é o singular de paparazzi), que eu chamo de retratista. Como seria a denominação de um jornalista especialista em cabeças de matérias enganosas?

Voltando para a atriz e apresentadora Ana Hickmann e sua suposta mega sorte.

O “corpo” da matéria continha uma história besta sobre um cartomante ou vidente, sei lá, e frisava que: “Segundo o espiritualista, a apresentadora pode, PODE vir ganhar na Mega Sena e ficar ainda mais rica”. Ou seja, nada de verdadeiro. O peixe-leitor foi fisgado direitinho.

Tudo não passa de um belo “Nariz de Cera”– o Dicionário do Foca explica: “Tenha certeza de que não tem nada a ver com museus ou esculturas”. Segundo o Manual do Foca, “guia de sobrevivência para jornalistas”, o termo “nariz de cera” dá nome a introduções de matérias que são muito longas e vagas, sem dados exatos. Basicamente é a famosa “enrolação”.(*)

Passear na web é uma aventura e um grande exercício de interpretação e malícia. Se assim não for você vai passar horas, sem querer, preso às chamadas do tipo bela Ana Hickmann ou “Você se lembra de fulano de tal? – se controle para não chorar quando ver como ele vive hoje”.

A última que do nada apareceu num site de busca, estrategicamente colocada entre os resultados, foi cômica. Algum algoritmo deve ter me identificado como imbecil e me persegue web afora. Simplesmente dava um alerta: “Globo encerra atividades na TV aberta, emite comunicado ao público e confirma último dia no ar: 31 de dezembro”. Cocei o queixo antes de clicar no link. Matutei sobre como um povo tão culto e antenado vai viver sem a novela das oito, sem os “inéditos” Vale a pena ver de novo? Sem o mais grave, sem dar o sonoro boa noite para o Bonner ao fim do Jornal Nacional? Apesar de destorcida, não pode ser caracterizada como uma “Barriga” ou fake. Pura esperteza isso sim!

Mesmo sabendo que lá vinha sacanagem cliquei. Sim, a Globo encerra atividades na TV aberta, emite comunicado ao público e confirma último dia no ar: “31 de dezembro”, mas em países como Alemanha, Espanha, França e Itália.... - https://www.otvfoco.com.br/globo-deixa-tv-aberta-e-confirma-ultimo-dia-no-ar-31-de-dezembro/

Comecei a rir, pois caí na armadilha sabendo. Contudo, o que importa para a TV Foco, da própria Globo, são os cliques e visualizações. Assim, ajudei a “Vênus platinada”. Apelido este que, segundo o apaixonado pela história da televisão no Brasil, Márcio Menezes, “[...] surgiu em 76, quando funcionários da Globo trocaram de sede após um incêndio na antiga sede em  1976, a fachada do prédio foi pintada de prata a pedido de Hans Donner e ai o apelido acabou pegando.” Dessa forma, a ajudei em suas estatísticas mercadológicas. Estas sim interessam muito, pois abrem os olhos de patrocinadores. Todo cuidado é pouco. Fique esperto. 

Aproveitando as dicas do Manual do Foca e do Manual de Redação da Folha, vou ficar atento para saber qual será o “olho” desta crônica e ainda, para agradar a nossa Redação, passo a seguir seu conselho para que a produção seja feita dentro do padrão Arial 12. Já em jornais e revistas os tamanhos geralmente são 10. Corrija-me Redação, se estiver errado!

Pois então, se você acredita em tudo, até que “uma palavra derruba o governo”, redobre atenção, uma palavra talvez não mas um VOTO, este sim.

Ótimo fim de semana, use máscara, evite aglomerações, use álcool em gel e seja socialmente responsável e não um total imbecil negacionista, vacine-se pois a Ômicron perigosamente nos ronda. 

“Nota pé”
(*) Os termos de redação de jornalismo e significados foram coletados no site DICIONÁRIO DO FOCA - Anatomia dos jargões: da cabeça à nota pé - http://facopp.unoeste.br/facopp/anatomia-dos-jargoes-da-cabeca-a-nota-pe/.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





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