26/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 26/11/2021 às 08h00min

Sobrevida

WILLIAM H STUTZ

Orvalho da manhã em lírio do campo.
No campo procurando bichos, acha-se tesouros breves
basta nesga de sol para derreter tamanha beleza. Aranha espera presa em teia por sua presa. Quem mais atado aos caprichos da vida está? A morte gerando vida. Preia prece sem ressonância, retorno, ecoar. Nula repercussão.
Tributo amargo de um existir frágil. Perpetuação de um sob a carcaça de outro. Insano jogo sem vencedores, sem derrotados.
A quântica energia da eternidade se fazendo presente a cada passo. Festa do sobreviver em chamego balançar de pura seda.
Ode à vida em diminuto mundo de jardim, pouco visto, passa batido. Tropeçamos em vida como gigantes insensíveis, passamos por ela pisoteamos, pisoteados. Cada agrado de bom grado recebo. Careço dengo e chamego cafuné. De dengue e febres outras, farto estou.

Dois mundos
Caminhos os há, difícil é saber qual seguir. Terra batida, atoleiros ou asfalto. Caminho cósmico - estrelas. Via Láctea sinalizada - estrada de sonhos. Misteriosa magia. Aquecia por dentro de prazer só de pensar. Deitada no telhado frio do curral vigiava o mover dos astros. Encantada com a viagem anunciada. Trecho infinito a percorrer. Belo luminoso. Volta e meia uma luz mais agitada cortava seu campo de visão, de vigília a devaneio. Visitantes estelares ou um simples balão meteorológico a espiar nuvens, mares e ventos? Um paranoico avião espião em busca de novas ameaças imaginárias? Balança a cabeça como a espantar a ideia. Quanta falta de poesia. Eram com certeza alienígenas vestindo impecáveis uniformes prateados. Raça evoluída com ânsia de dividir conhecimento. Gente do bem, vindos de muito longe.

Já os havia visto em ocasiões diversas. Em sonhos, durante enfadonhas preleções matinais na igreja. Durante as aulas de matemática, nos intermináveis almoços e jantares familiares. Principalmente quando tias e primos desconhecidos por lá aportavam - vinham da cidade. Chatos. Principalmente os primos com seus tênis de grife e palavreado entrecortado, meias e preguiçosas palavras sem nexo. Eles cheiravam ar-condicionado e sanduíche de shopping. Debochavam em silêncio de suas roupas e de sua botina mateira.

Mas a presença deles era mais comum à noite, logo depois de seu pai desligar o motor da energia. Eles gostavam muito do escuro ou da fraca luz do candeeiro. Visão acostumada à escuridão do cosmo, devia ser isso.

Uma estrela cadente cruzou o céu, passou raspando a copa da mangueira, iluminou o pasto. Mãe do ouro.

Caminhos os há. E em breve teria que escolher o seu. Não queria a cidade - traçou o dos céus, para lá é que ia longe, bem longe.
Breve, muito em breve.

Cata-vento
Pode botar mais um prato à mesa, pode consertar aquele banquinho velho de madeira de lei que está encostado no canto do paiol. Prenda os cães que não gostam de mim e me ameaçam na porteira, estou entrando. 

Recolha a roupa do varal que vem chuva.
Se Quero-quero gritar lá do pasto, não pegue a velha "flober" que calça bala 38; sou eu mesmo, meio trote em busca de luz, à cata de ventos melhores vindos do oriente onde o sol nasce quase sempre.

Caipira que sou sei bem sabido: 
"Se tiver poeira eu vou na frente,
se tiver porteira eu vou no meio,
se tiver atoleiro eu vou atrás".

Limpo os pés na enxada virada - fincada no chão, piso forte no alpendre de tábua gasta-corrida.
Sinto o café torrado vindo da cozinha. Como é bom voltar.
Os retratos antigos de vós e vôs acabados à mão, bochechas rosadas em papel amarelado me olham, aparentemente felizes. Passo pela imensa sala e só eu ouço seu cheiro doce.
Tropeço na canastra coberta de couro, aquela com as iniciais de Vô Altino escritas com tachinhas, as mantas de tear ainda estão guardadas lá.
Encosto no fogão quente com sua lenha-joia. Tem linguiça defumando.
Saio para o quintal. Meus Deus, já é tempo jabuticaba.
Choro!


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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