19/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 19/11/2021 às 08h00min

Andando na chuva

WILLIAM H STUTZ

E ela cansada de tanta mesmice andou na chuva. Era a primeira chuva. Redentora, anunciava o fim de longa estiagem, chuva tão esperada por homens, bichos e plantas. A poeira também desceu rápida dos céus e lavou o ar, lavou vento e folhas. Ela sentiu cheiro de verde e terra molhada. Respirou delicioso ar puro e úmido, seu peito se encheu de vida.

E ela encantada andou na chuva descalça. O toque de seus pés desnudos com o chão lhe trazia um prazer singular. Em algum cantinho de suas mais belas lembranças lá estava a sensação. Déjà vu.

As pequenas pedrinhas que por vezes topava não a incomodavam em nada. Pequenas alfinetadas nos pés com gosto e lembrança de infância, não doíam mesmo em dor.

Ela na chuva cabelos molhados sentia a bênção de ter os pensamentos e emoções lavadas, sentia-se transportada para algum lugar lá longe no tempo, quando era mais feliz. Não que fosse triste, pelo contrário tinha tudo, ou quase tudo, com que sempre sonhara.

Mas a alma humana verdadeiramente sensível, verdadeiramente alma, pode algum dia se dar ao luxo de plena, de plena... calma?

A roupa agora encharcada se fazia nova pele, o contorno de seu corpo visível em água, e ela estava feliz porque gostava do que via, do que sentia, gostava. Privilégio.

Hoje não vestiu sua armadura de segurança, se expôs aos seus verdadeiros sentimentos, e a chuva que hora tomava lavou, levou todos os seus temores para bem longe.

Pele e seios encantadoramente arrepiados em prazer indescritível. Vontade de gritar! Uma lágrima de felicidade a se misturar com a chuva. Não, aquela lágrima não se misturou. Como diamante de rara pureza, lapidado em cor, dor e muito amor escorregou por seu rosto, percorreu-lhe o corpo em manso afago, e sempre brilhando, destacada na enxurrada, buscou caminhos de um rio, e lá ainda em brilho de gema-alma permanece eterna, guia, conduz, norteia aqueles que como ela aprenderam a amar.

Hoje, cansada de mesmices e protocolos fúteis, tomou chuva com gosto e vontade, por um instante, breve instante, se tornou outra pessoa, seu corpo exalava perfumados temperos: salsa, salvia, alecrim, e tomilho, a mística música.

Com as sandálias nas mãos, decote aberto, vestido enrolado até os joelhos, olhos entreabertos, sorriso puro em larga e carnuda boca, encharcada até os ossos e feliz, cantarolou:

Guarda-roupas
Em meu guarda-roupas de tudo um pouco,
guarda lembranças, guarda cobranças
guarda exagerados segredos loucos.

Meu guarda-roupas, meu armário
tão confuso, organizada bagunça, retrato em carrara de minha alma, meus pensamentos, meus desejos.
um particular santuário.

Entre botinas e rimas, guarda prosa, guarda verso, esconde retalhos.
às vezes claros às vezes escuros
misturam-se em doce harmonia alhos e bugalhos

Meu armário, guarda sim meus mais loucos segredos,
mas bem lá no fundo entre livros, meias, cintos e canivetes,
guarda impregnados nas roupas, porém escondidos alguns de meus maiores medos.

Sou tudo

Sou um nada, sou um tudo.
Me preencho, ligeiro me esvazio
Sou falante, sou totalmente mudo.

A cada um tempo e hora
Sou feio e sou belo
Um mais tarde surge, outro agora

Sou fogo sou gelo
amo e afasto
me vejo em brasa, atropelo

Apaixonado, ciumento
Me apego
imenso sentimento

Sou rico, sou pobre
Sou forte sou fraco
Sou rápido sou lento

Sou um tudo, sou um nada
Vazio me sinto completo, repleto
Sou falante
Sou forte sou fraco
Sou mudo
Sou surdo

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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