05/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 05/11/2021 às 08h00min

Contemplação

WILLIAM H STUTZ

Vocês devem ficar a imaginar porque tanto falar de pôr de sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhos. De uns tempos para cá resolvi ir a pé para o trabalho. Não que tenha levado em conta, pelo menos conscientemente, o aquecimento global, campanhas do tipo deixe seu carro em casa ou aquelas do transporte solidário. Mas, pensando bem, é um ponto indireto para mim.

Na realidade, dois motivos me levaram a tomar essa decisão. O primeiro e mais importante é que, em casa, estão todos de férias, menos eu. Não seria justo alguém acordar só para me trazer ao laboratório. O outro, é que acordo cedo demais, com o primeiro canto de sabiá ou grito de curicaca. Faço o café e, nos dias de coleta, coloco o lixo para fora.

Até hoje, não me acostumei com o péssimo costume de muitos aqui. Colocam o lixo nas lixeiras em dia que o caminhão não passa a recolher. Considero isso uma falta de civilidade absoluta. Resultado, cães conseguem rasgar sacos, catadores mal-educados vasculham de qualquer jeito e o que se vê é lixo espalhado pelas ruas, horror.

Mais uma vez, a velha ladainha: somos donos do lixo que produzimos e, assim sendo, ele deve obrigatoriamente ficar sob nossa guarda e responsabilidade em casa, para ser entregue à coleta nos dia em que ela passa. Mas essa é prosa para outra crônica.

Café tomado e lixo entregue, pego rumo do trabalho.
Outro detalhe, minha CNH venceu e para renová-la tenho que fazer o tal curso de primeiros socorros, legislação e não sei o que mais. Estou atrás das apostilas, vou estudar em casa e fazer a prova, apesar de não gostar nem um pouco de dirigir. Lá em casa, todos adoram seus carros, eu gosto mesmo é do banco do carona, assim posso apreciar pôr do sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhar.

Assim, impedido de dirigir, vindo a pé, me liberto de dependência de outrem e, ao mesmo tempo, meus horizontes ficam maiores.

A caminhada é curta, coisa de meia légua de distância aproximadamente, mas já é suficiente para começar o dia desperto e pronto.

O frescor do ar matinal aguça nossos sentidos para as boas coisas e as ruins também. No trajeto, não raro, deparo com trechos sem calçada que me obrigam ou a pular mato adentro ou a tomar o asfalto, onde, com cuidado, tenho que bailar para não ser atropelado por incauto motorista ou motoqueiro que parecem mirar a gente. Acordaram de mau humor, penso cá com meus botões. Muitas calçadas obstruídas por material de construção também são um desafio. Relevo é cedo e quero manter o astral alto. Motivos não me faltam. Pelo caminho encontro canários-da-terra aos casais em festa de trinados e as curicacas da madrugada em terrenos a ciscar desjejum. Uma placa de escola reflete brilho intenso do sol nascendo às minhas costas como se tivesse luz própria. Cheiro de pão fresco. Sorrisos passam por mim. Volta e meia um terrível odor de fumaça de cigarro. Um carro com som a toda altura. Um cidadão aperta a buzina apressado assim que um sinal abre. Tento ignorar e boto reparo em bando de maritacas que voam rumo leste.

Descobri mais esse prazer, ir a pé para o trabalho. Cobrem-me a história do velhinho com as rolinhas, encontro diário que durou anos.

Estes são alguns motivos pelos quais, como de costume, me levam a falar de pôr do sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhos.
E haveria razões mais óbvias?

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.




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