19/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 19/08/2021 às 08h00min

É preciso um mea culpa

Por Adir Claudio Campos, advogado e mestre em direito público
Os governos não duram muito; alguns têm prazo de validade vencido precocemente. O senhor Jair Bolsonaro caminha rapidamente para o fim e as evidências vão surgindo por toda a parte.
 
O dito cujo arruma confusão – desnecessária, diga-se – uma atrás da outra, como essa agora de ofender os magistrados dos tribunais superiores por assuntos risíveis, uma aventura irresponsável de apontar fraude no sistema de votação eletrônica sem antes se dar ao dever de indicar provas. Com isso, expõe-se às chacotas e à ridicularização.
 
O presidente da República não consegue criar um ambiente mínimo de entendimento e harmonia sequer com setores da sociedade que o apoiaram, como os liberais, a mídia e, conforme anunciado nesta semana, importantes lideranças empresariais, que começam a vê-lo, como se diz, uma mala-sem-alça.
 
Nestas circunstâncias, sem o impulso de um crescimento econômico que faça um bom contraponto ao pessimismo de mais de cinco anos de crise, é simplesmente impossível que dê certo um governo tecnicamente medíocre e dirigido por um ex-capitão destemperado e intriguento.
 
Todas as pesquisas – e não foram poucas – indicam sem margem à dúvida que, se as eleições fossem hoje, seria o fim das esperanças de sua reeleição. Parece que, a exemplo de Trump, Bolsonaro não vê outra saída a não ser criar pretextos para tentar sair de cena como vítima de mais uma "conspiração comunista".
 
Seus fieis seguidores simplesmente ignoram a cada revelação de que o incorruptível “mito”, na verdade, nunca passou de um reles e vulgar representante do Centrão, com as mesmas e iguais práticas de um tosco parlamentar do Baixo Clero da Câmara dos Deputados, envolto com "rachadinhas", milicianos e pastores picaretas do tipo de Valdemiro Santiago e outros.
 
Parece incrível que o Brasil tenha chegado aos estertores de sua vida política e institucional com o presidente ameaçando que “não vai ter eleição” e seus sectários apoiadores pregando golpe de Estado e fechamento dos poderes da República. Uma baixaria inimaginável, quando a minha geração se lembra do refrescante e ensolarado amanhecer democrático da sociedade civil há 37 anos, movimento coroado com a Constituição Cidadã, que trazia a esperança de que bandoleiros fardados jamais voltariam a rosnar e a morder advogados no legítimo exercício de sua profissão, conforme se viu recentemente em Goiás, Mato Grosso e que voltou a ser notícia frequente.
 
Agora, começam a atacar magistrados, sempre com o mesmo pretexto para virar a mesa: a palavra final do que é e do que não é constitucional não é do Supremo Tribunal Federal, mas das Forças Armadas; o parlamento só serve quando se curva à autoridade executiva; a democracia e suas regras de alternância só prestam se as urnas confirmarem a vontade do messias.
 
Bolsonaro vai passar rapidamente pela história. Mas todos que colocaram essa excrescência no poder precisarão fazer um honesto e sincero "mea culpa", tal qual fizeram os arrependidos apoiadores do golpe militar de 1964, como a Folha de São Paulo, a Rede Globo e tantos empresários e lideranças políticas – mais uma vez!

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