31/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 31/07/2021 às 08h00min

Desfazendo mitos

ALEXANDRE HENRY
Quando eu era pequeno, o mundo ainda vivia a chamada Guerra Fria. A ideia que prevalecia era a de que, dentre outras coisas, o mundo capitalista era menos burocrático, com muito mais liberdade individual e quase sem interferência do governo. Já os comunistas eram o contrário. De fato, se você comparasse os dois sistemas de governo e de vida, essas diferenças seriam marcantes.

A questão é que, vinte e cinco anos após o fim da Guerra Fria, voltei a ouvir aquele mesmo discurso polarizado que divide o mundo entre capitalistas e comunistas. Mas, comunista onde? Talvez na Coreia do Norte. Cuba? Bom, estive lá em 2012 e o país já começava a permitir algumas iniciativas privadas. Depois disso, evoluiu um tanto e hoje há muito da economia que não está nas mãos exclusivas do governo. Ditadura, sim. Mas, o tal do comunismo está capengando até em Cuba.

Então, do que esse povo está falando? Sinceramente, não sei. Talvez seja só uma manobra política para criar um inimigo imaginário comum e, assim, garantir votos. Afinal de contas, quem quer que nosso país vire uma nação comunista nos moldes do que tínhamos na segunda metade do século passado? Ninguém, claro. O problema é que esse discurso leva a uma visão errada sobre muita coisa, dourando a pílula do que é favorável e depreciando excessivamente o que não é favorável à corrente política que levanta a bandeira da guerra contra o “comunismo”.

Dou dois exemplos bem ligados a essa discussão: burocracia e liberdade individual.

Há poucos dias, vim para uma temporada de estudos nos Estados Unidos, juntamente com minha esposa, que está fazendo doutorado. É fato que o Brasil é um país com uma burocracia elevada. O problema é que a tal “ameaça comunista” faz com que muita gente, principalmente os brasileiros de classe média que passam apenas alguns dias de férias nos EUA, exagerem na comparação entre as duas nações.

Ninguém tem noção da quantidade de formulários que se preenche na terra do Tio Sam. Fui alugar um imóvel e é muita informação exigida, muito papel, muito documento. Filha na escola? Só com exame prévio de saúde e certificação das vacinas, além de vários formulários a serem preenchidos. E esse exame de saúde? Liguei na clínica e gastei 40 minutos no telefone para fazer um pré-cadastro. Claro, isso depois de tentar marcar em um serviço público de saúde, ficar no telefone quase uma hora sem ser atendido e desistir. Na clínica particular foi mais fácil? Recebi um link para preencher mais informações no site da clínica. Basicamente, quinze páginas de formulário.

Na companhia de eletricidade, foi até fácil cadastrar para ter acesso ao serviço. Tudo online, tudo bonitinho. Até eu receber um aviso de que a ligação não poderia ser feita enquanto eu não enviasse uma cópia do meu documento por... fax! Sim, fax. Sabe aquela maquininha da era pré-internet? Então, ela mesma. Eu já tinha enviado pela internet, mas sem a via pelo fax, nada feito. Na empresa de telefonia, outro ponto que pouca gente imagina. A gente pensa no Brasil e acha que tudo é complicado e que, nos EUA, tudo é extremamente simples. Na maioria dos casos, sim. Com um porém: é simples se você optar pelo que é padronizado. Se sair da receita de bolo, trava tudo. Tentei adquirir um plano de telefonia celular bem específico, voltado para estudantes estrangeiros. O vendedor da loja trabalha lá há quinze anos, mas nunca tinha feito esse plano. Resultado: fiquei o dia inteiro na loja para adquirir um simples número de celular.

Por outro lado, muito se fala do Brasil “comunista” pelo suposto excesso de controle sobre as liberdades individuais. Nos EUA, um amigo deixou a planta do jardim da porta da casa dele crescer alguns centímetros a mais do que o permitido pela prefeitura e foi notificado por isso. Às vezes, a prefeitura estabelece com precisão como tem que ser um monte de coisa na sua casa. O condomínio faz a mesma coisa. Aliás, o condomínio pode impedir você de alugar sua casa para alguém. Direito de propriedade? Sim, mas desde que o condomínio deixe.

Eu poderia seguir em frente com esse “choque de realidade” por longas páginas, mas o espaço acabou. Não, os EUA não são um país ruim. Também não são mais burocráticos do que o Brasil. A questão é só a forma como se comparam os dois países. Parece que em um, “comunista”, é tudo só burocracia e controle governamental. No outro, tudo automático, imediato e com liberdade individual ilimitada. Sinto dizer, mas não é nada disso, por mais que aqueles dez dias de férias na Disney tenham deixado essa impressão.
 
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