19/05/2021 às 11h00min - Atualizada em 19/05/2021 às 11h00min

Perfume de mãe

Por Ana Maria Coelho Carvalho
No excelente filme "Perfume de mulher", Al Pacino representa um militar cego que sonha em passar um fim de semana inesquecível em Nova York antes de morrer. A cena mais bonita do filme é um tango que ele dança com uma jovem, ao som da música de Carlos Gardel. Mas o interessante é a extrema sensibilidade do militar, como pessoa cega, em sentir e definir com precisão o perfume usado por cada mulher que se aproxima dele.
 
Pensei então que existem perfumes que nos fazem lembrar de certas pessoas ou de lugares. O perfume da flor de magnólia sempre me lembra a minha mãe  e o jardim da minha infância. Na nossa antiga casa, numa cidadezinha de interior, existia um belo jardim com hortências, rosas, antúrios, ciprestes e palmeiras. No meio, majestoso em sua simplicidade, um pé de magnólia.
 
Quando as flores brancas se abriam, perfumavam todo o ambiente, com um aroma adocicado e penetrante. Minha mãe cuidava do jardim e tinha um carinho especial pelo pé de magnólia: podava, tirava as flores e folhas velhas, colocava terra e esterco. E quando sinto cheiro de goiaba também me lembro dela. Todo ano fazíamos goiabada.
 
Eram dias de labuta e minha mãe ficava com cheiro de goiaba. E eu também, pois ajudava em todas as etapas, desde subir no pé para apanhar as goiabas, até ficar horas mexendo o tacho de cobre na trempe de lenha, com uma grande colher de pau, com medo de o doce de goiaba molinho e escaldante, que borbulhava no tacho, cair nas minhas pernas. Sinto saudades dela.
 
Mãe é para sempre e não deveria morrer. Como escreveu Drumond: "-Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será sempre pequenino feito grão de milho".
 
Mas, não tem como e um dia as mães vão-se embora. Mas deixam seus ensinamentos,  exemplos e a lembrança de algum perfume só seu. E com certeza, se amor tivesse perfume, todas as mães teriam o perfume do amor. Um perfume resultante do amor de todos os tipos de mãe:  a mãe de barriga ou a mãe de vida; a mãe alegria e a mãe sofredora; a mãe educadora e a mãe analfabeta; a mãe corajosa, a mãe oprimida, a mãe carinhosa, a mãe-pai , a mãe desde sempre e a mãe escolhida; a mãe que se acaba junto com o filho viciado, a mãe que pede pão para os filhos. E tantos outros, pois os tipos mudam, mas o amor não.
 
Como exemplo de tipo de mãe dos tempos modernos, temos a mãe de aluguel,  que surgiu com o aperfeiçoamento das técnicas de reprodução humana. Li  certa vez uma reportagem sobre um terremoto no Nepal, enfocando o resgate pelo governo de Israel de 26 bebês recém-nascidos  de barriga de aluguel. Eram filhos de solteiros e gays israelenses que utilizaram a inseminação artificial e o embrião foi implantado no útero da mãe de aluguel. Havia, na época, mais de 100 mulheres nepalesas grávidas de filhos de israelenses. O processo todo, até a entrega do bebê, custava em torno de US$20 mil no Nepal e US$ 100 mil nos EUA. Com medo de tremores secundários, estavam resgatando os bebês e 20 mães de aluguel em adiantado estado de gestação, mas  não havia preocupação com as  80 mães que ficaram para trás e nem com aquelas que tinham acabado de dar a luz.
 
Enfim, considero que mãe de aluguel é um assunto complexo demais para dar opinião. Só sei que minha mãe nunca sonharia que isso seria possível e não entenderia nada do processo, mas mesmo assim envolveria todas as mães com seu perfume de magnólia e de goiaba. 



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